DECLARAÇÃO DA ESCOLA UNA


I - ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE PSICANÁLISE
COMUNICADO DE 24 DE JANEIRO DE 2000 (2)

Em 21 de junho de 1964, reafirmando, ao mesmo tempo, a validade da experiência psicanalítica e a necessidade de estabelecer-lhe o princípio freudiano na teoria e na prática, Jacques Lacan introduzia, simultaneamente, a noção de uma forma associativa até então inédita: no lugar da Sociedade que se tornou tradicional, baseada sobre o reconhecimento mútuo dos didatas, ele propôs a Escola, cujos membros encontrariam no reconhecimento de um não saber irredutível – S(A) – que é o próprio inconsciente, o ponto de partida para prosseguir um trabalho de elaboração orientada pelo desejo de uma invenção de saber e de sua transmissão integral, o que Lacan devia chamar, mais tarde, de matema. Sobre esse fundamento abissal, cobrindo-o com seu nome próprio, ele estabelecia sua Escola e convocava à reconquista do campo freudiano.

"O apelo de Lacan ressoou para além da dissolução Escola que ele havia fundado – ressoou para além de sua morte, ocorrida em 9 de setembro de 1981 – ressoou longe de Paris, onde ele viveu e trabalhou". Assim se expressava, em 1º de fevereiro de 1992, o texto do Pacto de Paris, redigido no momento em que a École de la Cause Freudienne, a Escuela del Campo Freudiano de Caracas, a École Européenne de Psychanalyse du Champ Freudien e a Escuela de la Orientación Lacaniana del Campo Freudiano decidiram convergir rumo à Associação Mundial de Psicanálise que acaba de ser fundada por Jacques-Alain Miller.

Hoje, quando, há vinte anos, os Encontros do Campo Freudiano escandem e relançam, regularmente, a vida de uma comunidade internacional que eles eminentemente contribuíram para fazer existir; após oito anos ativos e laboriosos no seio da AMP; ao sair de uma crise atravessada e ultrapassada conjuntamente; e enquanto duas Escolas nacionais estão em gestação na Espanha e na Itália; chegou o momento de dar o passo seguinte: tratar-se-á da fundação do que já encontrou um nome, a Escola Una da AMP.

Por iniciativa de Ricardo Nepomiachi, o Conselho da EOL, instalado em Buenos Aires, adotou um projeto de declaração ao qual ele propõe que se subscreva todo membro da AMP que deseje se tornar, após a aprovação do Conselho da Associação Mundial, membro da Escola Una.

O Conselho da AMP, reunido em Paris em 22 de janeiro de 2000, faz sua esta iniciativa, e decide abrir para discussão dos membros da Associação Mundial, no âmbito de suas Escolas, o texto que se segue, inspirado pelo projeto EOL.

Acompanhado, eventualmente, de contribuições nascidas desse debate, o texto definitivo será ratificado pelo Conselho da AMP. Ele será submetido à votação por este, na Assembléia Geral de Buenos Aires, em 14 de julho próximo.

PROJETO DE DECLARAÇÃO
No curso dos vinte anos transcorridos desde o primeiro Encontro Internacional do Campo Freudiano convocado para Caracas, com a presença de Lacan, uma comunidade internacional multilingüe tomou forma e consistência.

Se seus membros se distribuem em várias Escolas que estão no âmbito natural de seu trabalho cotidiano, eles se sentem, certamente também, como partes de um mesmo conjunto, partilhando as mesmas referências e o mesmo destino na psicanálise, constituindo um único e mesmo movimento mundial, cuja vitalidade demonstra que o voto da International Psycho-Analytical Association que quis calar a descendência analítica de Jacques Lacan, ao pronunciar sua excomunhão, não se cumpriu.

Vários membros da IPA, sobretudo na América Latina, optam pela recuperação da obra de Jacques Lacan, mas ao preço de dissolver-lhe o alcance e amputá-la de suas conseqüências na prática e na instituição. Com efeito, por ignorar tudo quanto à disciplina do matema, por reverenciar apenas aquela do standard, o que foi a casa de Freud tornou-se um albergue que acolhe múltiplos monólogos, indiferentes uns com relação aos outros e que se neutralizam. O conjunto se mantém pelo efeito conjugado de uma tradição histórica e de uma regulação quantitativa, totalmente formal e exterior, um rito que, aliás, é cada vez menos respeitado, que vem duplicar a justaposição emoliente dos "pontos de vista pessoais".

Em compensação, a mais jovem comunidade reunida na AMP é animada por uma orientação concreta que controla e veicula uma Conversação permanente. Ela avalia que deu provas disso. Ela confia em sua estrela. E, embora ela esteja ainda em sua forma incoativa, ela deve decidir a admitir como um fato que lhe cabe uma tarefa: aquela de trilhar na psicanálise a única via alternativa que é efetiva.

Com este fim, e neste começo de um novo século, os signatários, membros da Associação Mundial se reconhecem como companheiros de uma mesma causa e declaram que se constituem como uma Escola Una.

Una, apesar da diversidade das línguas e das tradições culturais.
Una, malgrado as distâncias geográficas.
Una, no sentido contrário ao da tendência natural ao distanciamento, à divergência, à fragmentação.
Una, mas sem o enfado que se vincula à homogeneidade do Um, pois plural e não-standard.

Escola que tem seus AEs, cujo passe é verificado pelo mesmo dispositivo que opera em cada uma das Escolas, segundo procedimentos homólogos.

Escola que tem seus AME, praticantes que deram provas de formação suficiente e cuja nomeação deverá, em breve, encontrar um procedimento melhor definido.

Escola cujos membros não procuram na sociedade nenhum privilégio de extra-territorialidade, mas que agem na vida cotidiana e na vida intelectual de seu tempo para fazer passar o que, da política lacaniana, é susceptível de se transmitir a todos e de ter uma incidência real. Porque aqui está uma Escola que não pretende "depor as armas contra os impasses crescentes da civilização".

Esta Escola é uma experiência.

Com efeito, o "Ato de fundação" de 1964 inaugurava uma instituição propriamente psicanalítica no que ela oferece, ao trabalho de transferência, que sustenta o tratamento, a continuidade da transferência de trabalho. A Escola, por isso, pode pretender, legitimamente, o estatuto de experiência subjetiva. É essa experiência, que se prossegue nas diferentes Escolas fundadas durante esses vinte anos, que se declara, hoje, sob uma terceira forma: a Escola Una, transnacional e translingüística.
Experiência jamais feita, até então, de uma Escola sem fronteiras e, entretanto, experiência que já estava aí, esboçada, antes de sua ex-sistência ser declarada. Indissoluvelmente, experiência de transferência e experiência de trabalho que deverá, de acordo com a proposição de Lacan, ser analisada (seus AE estão aí para isso), ao modo de um tratamento, e ser interpretada, e ser dirigida.

Sabemos que o empreendimento desta Escola, Escola da Orientação Lacaniana em escala mundial, é inaudito. Ela parece impossível. Ela não está menos ao nosso alcance.
Para vencer, ou para "falhar da melhor maneira", ela vai se basear sobre a lógica que a atravessa: esta, êxtima para cada um a um, determinará o "work in progress" de todos para dar à luz a uma verdadeira comunidade analítica integrada.
No começo de um novo século, o segundo século da psicanálise, esta Escola terá sua política, a ser ainda aprofundada.

Buenos Aires-Paris, 22 de janeiro de 2000.

DISPOSIÇÕES ADJUNTAS À DECLARAÇÃO
1 - A Escola toma ex-sistência por sua Declaração.
2 - A Escola é feita para elaborar e transmitir a psicanálise, controlar-lhe a prática; ela produz psicanalista, e funda sua qualificação porque: é Analista da Escola (AE) o analisando que tenha concluído sua performance; é Analista Membro da Escola (AME) o praticante que tenha dado provas de sua competência.
3 - Entra-se na Escola subscrevendo-se a ela pela Declaração; não é possível ser seu membro sem a admissão pela AMP; pode-se deixá-la pela manifestação de sua vontade de partir, ou pela manifestação da vontade da AMP.
4 - A Escola usa todos os meios necessários, particularmente a palavra e a escritura.
5 - Ela não cobra cotizações.
6 - A dissolução da Escola é, a cada dois anos, automática; sua refundação, por mais dois anos é, normalmente, votada pela Assembléia Geral da AMP.
7 - A orientação de seu trabalho para os dois anos do ciclo seguinte é debatida a cada dois anos na Grande Conversação e, a intervalos regulares, nas listas eletrônicas.
8 - O Comitê de ação da Escola é composto por nove membros eleitos pela Assembléia Geral, a partir de candidaturas distribuídas em listas, mais o delegado geral que a anima.
9 - As presentes disposições são susceptíveis a modificações pelo Conselho da AMP, a partir de proposição do Delegado Geral.


COMENTÁRIOS DAS DISPOSIÇÕES ADJUNTAS
1 - O texto das disposições adjuntas é um regulamento interno, previsto no artigo 12 dos estatutos da AMP.
2 - Os títulos são atribuídos pelas instâncias competentes da AMP e de suas Escolas: Comissões do passe, Comissões da garantia. A psicanálise é o programa freudiano para a busca da verdade; a versão utilizada na Escola é a versão Nova Aliança, estabelecida por Jacques Lacan, sobre o fundamento da palavra e da linguagem, e atualizada a cada ano. Atenção: ela é incompatível com outras versões do mesmo programa.
3 - Se pode ser admitido à Escola pela AMP sem ser membro da AMP. A vontade da AMP é expressa por seu Conselho.
4 - Entre os meios, pode-se enumerar: reuniões, conferências, seminários, colóquios, conversações, publicações impressas, publicações eletrônicas, etc.
5 - A Escola recebe, para suas atividades, subvenções da AMP e das Escolas; ela utiliza o produto das retribuições cobradas pelos serviços prestados; ela se beneficia de todos os outros recursos autorizados pelos textos legislativos e regulamentares.
6 - A dissolução periódica se dá no ano da Assembléia Geral ordinária da AMP, em uma data fixada pelo conselho, a partir de uma proposição do Delegado Geral.
7 - A Grande Conversação da Escola acontece no Congresso dos membros da AMP.
8 - A eleição do Comitê de ação se faz a cada vez, sobre as seguintes listas, onde são distribuídos os candidatos auto-propostos provenientes das Escolas (e Seções, no caso da EEP):

ECF: 2 eleitos
ECFC: 1 eleito
EEP-Développement: 1 eleito
EEP-ECFB: 1 eleito
EEP-Italie: 1 eleito
EOL: 2 eleitos
EBP: 1 eleito

9 - O texto das presentes disposições não será modificado antes da próxima Assembléia Geral da AMP.

Tradução: Sérgio Laia





institutos


centros de atendimento

 


ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE
- Copyright© 2007/2010, EBP
Rua Felipe dos Santos, 588 - CEP 30180-160 – Lourdes – Belo Horizonte  MG. Telefone/ Fax 31 3292 7563    - Secretária: Márcia Caldeira: ebp@ebp.org.br

CRÉDITOS


 
Diretor Responsável: Lilany Pacheco
Coordenação Geral: Helenice Saldanha de Castro
Coordenação de equipe: José Marcos Moura 
Articulação de conteúdos: Tatiane Grova
Revisão: Sandra Landim
Webdesign: Sandra Gober
Programação: Andrea Passos
Secretária: Ana Paula Santos
RUBRICAS
Anuário: Jorge Pimenta
Biblioteca online: Marcela Antelo
Cartéis: Heloísa Telles
Centros de atendimento: Iordan Gurgel
Eventos e Subsites: Tatiane Grova
Institutos: Ram Mandil
Memória de Veredas e Agendas: Rômulo Ferreira
Orientação Lacaniana: Vera Ribeiro
Publicações: a definir