Carta de JACQUES-ALAIN MILLER à ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE
Prezados Colegas,
Vocês sabem tanto quanto eu o tempo que foi preciso para chegar a esse dia de 30 de abril, quando irá nascer esta Escola que já quase desistimos de ver aparecer um dia. Por que um tempo tão longo? Que se pode temer, que se pode esperar para o futuro? Eis o que pretendo hoje examinar.
Quando me volto para o passado, vejo que decorreram nada menos que treze anos entre minha primeira viagem ao Brasil, em setembro de 1981, apenas poucos dias após a morte de Lacan, e este final de mês de agosto de 1994 que decidiu o nascimento da Escola. Treze anos! Ao passo que se estreitou um laço entre nós, desde os primeiros momentos quando usei da palavra diante de vocês na Rua Wanderley, em São Paulo. Muitos dos que lá estavam ficaram, eu próprio também. Passou-se uma geração.
Muitos se juntaram a nós nesse movimento singular e vigoroso que se chama o Campo Freudiano. Poderíamos ter economizado esses treze anos?
Seria fácil dizer que não, e demonstrar a necessidade de todos estes meandros. Isso não deixaria de ter um fundamento.
Entretanto, ao repensar nisso, no empenho de antecipar o futuro desta Escola nova, parece-me que se perdeu muito tempo em dissensões subalternas. Apelava-se para os franceses, ao mesmo tempo com temor do imperialismo deles: bem depressa se superou este obstáculo, que só teve força enquanto havia dissensões, dissensões persistentes e permanentes, entre brasileiros.
Aí estava o real problema: rivalidade entre Estados, ciúmes entre brasileiros. Esse obstáculo poderia ter sido levantado se não tivesse havido na Argentina a criação de uma Escola (3 de janeiro de 1992)? O fato é que a criação da EOL mostrou:
1) que vai bem o meu esforço para criar instituições nacionais independentes, ligadas entre si tão somente pelo cuidado com a causa freudiana, estabelecidas em pé de igualdade, dentro da nova Associação Mundial de Psicanálise;
2) que o nacionalismo mais exigente obtenha aí uma vantagem;
3) que não havia nada insuperável quanto às velhas disputas no contexto de uma Escola. Algum tempo depois, a criação da Iniciativa Escola anunciou ter chegado no Brasil o momento de concluir.
Não tenho mais nada para contar. Os acontecimentos recentes estão na memória de todos. O compromisso solene dos brasileiros frente à Assembléia Geral da AMP reunida em Paris, em 14 de julho de 1994 foi decisivo. Seguiu-se a isso a fantástica semana de agosto, quando percorri o Brasil para pessoalmente recolher o assentimento de cada um para a criação das Seções, antes de concluir em São Paulo com o comitê da Iniciativa.
Em suma, é uma história bonita. Entretanto, prezados colegas, já é história antiga. Existe uma Escola. Começa uma história nova. É o ano zero.
Vocês precisam, de início, se convencer que esta Escola está em suas mãos. Eu me apago. Vocês precisam se entender, entre vocês, para dirigi-la e orientar seu desenvolvimento. Toda a atenção, toda a amizade de que vocês estão cercados, não terá força para nada, se vocês recomeçarem os nefastos jogos de antanho.
Em seguida é preciso ficar atento a uma dificuldade particular ao Brasil. A Escola francesa, a Escola venezuelana, a Escola argentina, são bem naturalmente Escolas unas, seu problema é acolher, até mesmo, suscitar em seu âmbito o múltiplo. O Brasil, pelo contrário, é múltiplo, e por sabermos disso é que começamos fundando as Seções da Escola antes mesmo de fundar a própria Escola. O Um da Escola é frágil e será bem-vindo tudo que venha reforçá-lo com uma condição – que o Múltiplo o aceite de bom grado. Os estatutos, longamente discutidos, linha por linha, indicam um equilíbrio a respeitar nas decisões menores que fazem a vida quotidiana de uma instituição.
Enfim, é preciso a todo momento, visar o longo termo. Uma Escola é feita para durar, e é um organismo muito vasto e complexo. Não se pode conduzi-la com golpes bruscos no volante; tampouco se pode deixá-la estagnar: se ela deixa de avançar, vai regredir.
A Escola nasce sob os melhores auspícios; todas as fadas se inclinam junto a seu berço; ela tem os melhores estatutos possíveis; a AMP que levará bastante tempo até criar uma Escola comparável, zela pelos seus primeiros passos; no Brasil, há entusiasmo, e competência. Se vocês puderem distribuir convenientemente audácia e prudência, vocês tudo podem esperar.
A Escola representa no Brasil o Campo Freudiano e sua orientação lacaniana, sem a qual a psicanálise afundaria num irremediável arcaísmo. Isso dá à Escola uma vantagem decisiva. Resta comprová-lo, com trabalhos marcantes.
De minha parte, considero-me quite. Confio em vocês. De modo algum tenho aspiração de governar esta Escola, nem nenhuma outra. Só o sentimento do dever me impede de afastar-me completamente da ação institucional.
Aceitem, prezados colegas, minha atenção e minha afeição.
Jacques-Alain Miller
Paris, 5 de março de 1995
ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE - Copyright© 2007/2010, EBP Rua Felipe dos Santos, 588 - CEP 30180-160 – Lourdes – Belo Horizonte MG. Telefone/ Fax 31 3292 7563 - Secretária: Márcia Caldeira: ebp@ebp.org.br |
|||
|
CRÉDITOS |
|||
|
Diretor Responsável:
Lilany Pacheco
Coordenação Geral: Helenice Saldanha de Castro Coordenação de equipe: José Marcos Moura Articulação de conteúdos: Tatiane Grova Revisão: Sandra Landim Webdesign: Sandra Gober Programação: Andrea Passos Secretária: Ana Paula Santos |
RUBRICAS Anuário: Jorge Pimenta Biblioteca online: Marcela Antelo Cartéis: Heloísa Telles Centros de atendimento: Iordan Gurgel Eventos e Subsites: Tatiane Grova Institutos: Ram Mandil Memória de Veredas e Agendas: Rômulo Ferreira Orientação Lacaniana: Vera Ribeiro Publicações: a definir |
||