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AS NOVAS FORMAS DO SUJEITO SUPOSTO SABER

ee EDITORIAL


Vivemos numa realidade social na qual imperam os objetos e a falta de gozar e que, em contrapartida, se torna cada vez mais pragmática, mais adepta ao culto do “ça marche” do “isso funciona”[1], como forma de suprir essa falta. Assim, em nome dessa suficiência, assistimos atualmente a uma certa modificação do discurso capitalista, na qual a produção dos objetos aparece, como nos demonstra Miller em seu recente Curso (2007/2008), encoberta pelo discurso da ciência, por um saber – S2 – que quantifica, avalia e generaliza a satisfação, os modos de gozo. A dominação silenciosa e pacífica dessa forma de saber, avessa à suposição, está nos levando ao que Miller

nomeou de “mutação ontológica”[2], na qual o número se torna a garantia do ser, o número designa o ser. A existência das coisas e das pessoas, assim como a credibilidade delas, passa pela quantificação. Desta maneira, a busca da felicidade tornou-se, nos dias de hoje, uma ditadura do bem-estar, na qual observamos a proliferação das terapias cognitivas e a crescente medicalização da vida psíquica como formas padronizadas e indiscriminadas de responder ao sofrimento e aos impasses da vida.

Partindo da constatação desse estado atual da civilização, Miller nos alerta que é preciso que a psicanálise, através de nós, “faça uma nova aliança com o tempo presente”[3], ou seja, que possamos realizar ações e discussões que visem reintroduzir, em nosso mundo, o acesso, propiciado pela psicanálise, à singularidade das soluções e ao modo de satisfação próprio a cada um que, como sabemos, não se dá com a eliminação do sintoma e do mal-estar, mas com um outro uso que cada um pode fazer disso. Trata-se, para a psicanálise, de identificar no que faz diferença e não se adapta, a dignidade do sintoma.

 Assim, este número do Curinga tem como objetivo recolher, discutir e elaborar as respostas que a psicanálise de orientação lacaniana, em nossa comunidade, tem encontrado para lidar com os sintomas e os impasses da relação com o saber na contemporaneidade. Como vocês poderão conferir, este tema será tratado a partir de perspectivas diversas.

 Cartas na mesa, traz o texto de abertura da XIII Jornada da EBP-MG, apresentado por Ana Lydia Santiago, que esclarece as distintas perspectivas da psicanálise e da neurociências com relação ao saber e ao sintoma, assim como, as conseqüências dessas respectivas formas de abordagem do mal-estar na atualidade.

 Na seção Internacional, Guillermo Belaga problematiza as possíveis respostas da psicanálise ao tratamento do sintoma, no que diz respeito à urgência subjetiva e ao laço social.

Encontraremos, ainda, neste número, vários textos apresentados na XIII Jornada da EBP-MG - que articulam o Sujeito suposto saber e o sintoma, com temas tais como: a invenção, a crença, o desejo do analista e o pragmatismo - o que registra a riqueza e a intensidade da discussão feita em torno deste assunto.

Em Lições de psicanálise, Elisa Alvarenga e Fernando Casula tratam de problemas fundamentais da clínica psicanalítica: a reação terapêutica negativa e a questão da responsabilidade na psicose.

            Por fim, a seção Radar, através dos textos de Romildo do Rêgo Barros, Serge Cotet, Pierre Skriabine e Philippe La Sagna, nos coloca em conexão com o tema da próxima Jornada da EBP-MG sobre a depressão e a bi-polaridade.  

 

                                                                                                  Simone Souto

[1] Ver: MILLER, Jacques-Alain. Vers PIPOL 4…, p. 29.
[2] MILLER, Jacques-Alain. Cours Orientation Lacanienne (2007-2008, inédito), Lição 6.
[3] MILLER, Jacques-Alain. Vers PIPOL 4…, p. 25.


 

SUMÁRIO

ee CARTAS NA MESA
Psicanálise e Neurociências
Ana Lydia santiago

eeeee INTERNACIONAL
Na cidade pânico: sintomas da urgência subjetiva e respostas da psicanálise.
Guillermo Belaga

Sobre o sintoma e o laço social
Guillermo Belaga

 

O tratamento do sintoma e as novas formas do sujeito suposto saber

Crença e sintoma
Antônio Áureo Beneti

Pragmática psicanalítica
Frederico Zeymer Feu de Carvalho

Do desejo do analista ao parceiro-sinthoma
Tânia Coelho

Da suposição à invenção: o sujeito suposto saber na psicanálise aplicada à urgência
Lucíola Freitas de Macêdo

A perna de pau e seus emplastros
Jésus Santiago

Da escrita do amor à parceria amorosa com a escrita ou do amor ao saber aos escritos
Samyra Assad

A elaboração do saber em análise e a invenção
Mônica Assunção Costa Lima

Para cada medida um uso singular, um saber-fazer
Cristiana Pittella de Mattos, Cristina Nogueira e Mônica Campos Silva


eeeee RADAR

A bela inércia: nota sobre a depressão em psicanálise
Serge Cottet

O deprimido no discurso analítico
Romildo do Rêgo Barros


eeeee LIÇÕES DE PSICANÁLISE

Responsabilidade na psicose: consentimento do sujeito às ficções jurídicas
Fernando Casula Pereira

Reação terapêutica negativa e masoquismo
Elisa Alvarenga

 

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Revista Curinga Número 25