Tese sobre os Institutos - J. A. Miller
1. Nosso ponto de partida é o seguinte: O Instituto não é Escola
2. A Escola é uma instituição analítica, o Instituto uma instituição para-universitária. Isto é uma “vantagem” para a Escola.
3. A Escola é uma associação regida pela lei; ela tem membros; seus membros tem direitos; para que esses direitos sejam compatíveis entre si, a suposição de saber é votada, valendo um voto tanto quanto outro; há permutação etc. É o regime universal do “para todo x”.
4. O Instituto não é um associação; não tem membros; o saber está no cargo do comando; um voto não vale outro; o talento predomina, assim como o trabalho teórico, a competência intelectual, a pesquisa.
5. Sabe-se porque é necessária a Escola. Porque é necessário o Instituto?
6. Havia outrora a Sociedade Analítica e o Instituto. De um lado a associação dos membros e do outro a instância dos didatas. No lugar deste binário, Lacan colocou a Escola.
7. Por quê então reconstituir um novo binário? A mesma necessidade que levou Lacan em 1976 a renovar o Departamento de Psicanálise [da Universidade de Paris VIII] a fim de, cito, “estimular sua Escola, servir-lhe de aguilhão”.
8. Insistência de Lacan: renovar o Departamento (1975); querer e criar um DEA, um doutorado (1976), a Seção Clínica (1977).
9. O Instituto, eu o inventei a fim de prosseguir, na França e alhures, nessa via que é a de Lacan.
10. Por quê isso é necessário? Porque o discurso analítico tende invencivelmente a se auto-destruir.O saber suposto, que sustenta a psicanálise, também a corrói. Por isso é necessário um lugar a partir do qual o saber exposto venha lhe “fazer barra”.
11. O Instituto é esse lugar. Ali verifica-se, por excelência, a transferência de trabalho.
12. O Instituto conserva sempre algo de atópico. Quanto mais a Escola se particulariza, esboça os contornos de cada cidade, região, país, tanto mais o Instituto, em todos os lugares, tenta ser o mesmo – tal como o matema.
publicado em Almanaque, revista do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, vol. 1. novembro de 1998, p. 3.t.