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*Revista dos Institutos


Apresentação

Clique
, a revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, nasceu de um estalo. Ninguém podia prevê-la durante a longa discussão – a respeito dos rumos da psicanálise de orientação lacaniana no Brasil – ocorrida em Belo Horizonte naqueles primeiros dias de dezembro de 2000. No entanto, ela estava lá, antecipada, sendo gestada pela conversação, até vir à luz, primeiro como significante, depois materializada nesta publicação que está em suas mãos, caro leitor. Clique é uma resposta que inventamos para poder tornar mais claras as perguntas que nos interessam a respeito da prática da psicanálise neste novo século que se inicia.

Para isso, ela pretende ser uma revista de circulação nacional, publicada conjuntamente pelo Instituto de Pesquisas em Psicanálise de São Paulo, pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, pelo Instituto de Psicanálise da Bahia e pelo Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro. Suas fronteiras e seu litoral, todavia, terão a demarcação do “país da psicanálise”.

Clique procurará se mover acompanhando a plasticidade da cultura, sem, contudo, ceder de sua “extraterritorialidade”. Jacques-Alain Miller, em seu artigo “O ensino de Lacan”, acrescenta uma condição suplementar: a necessidade de se quebrar o encanto que recobre os conceitos da psicanálise para colocá-los à prova na sustentação de sua prática.

Como revista dos institutos,
Clique participa da dinâmica da psicanálise em sua relação com o saber: trata-se, aqui, de um lugar de exposição das mais diversas inquietações advindas de uma prática fundada sobre a suposição de um saber no real.

O tensionamento será permanente, o que é uma das funções de um Instituto de Psicanálise em sua relação com a Escola de Lacan. Desse encontro, saber produzir faísca, luz, levando-se em consideração que “cada analista é responsável pela materialização do inconsciente em meio aos ditos de seu paciente, mas, para isso, precisa apoiar-se no espírito de seu tempo”, conforme o editorial da Comissão Matemas – comissão nacional criada para elaborar as bases epistêmicas de um Instituto Brasileiro de Psicanálise do Campo Freudiano.

Sabemos que o “espírito do tempo” sopra na direção difusa das psicoterapias, seja no plano individual, seja revivida como purgação coletiva frente aos acontecimentos traumáticos experienciados em escala mundial. Não há como ignorar a dimensão psicoterápica que toma conta da política: contra o mal, só o bem.

Clique já nasce com uma tarefa: fazer ressaltar as linhas de demarcação entre a psicanálise e as psicoterapias, com agilidade, sem arrogância, sabendo respeitar a busca humana, “demasiada humana”, para se ver livre de seus sofrimentos. Lidar com o mal-estar, sem a ilusão de eliminá-lo, implica “saber guiar-se sobre o puro real”, colocá-lo num bom lugar pelas vias do bem-dizer. Que cada um possa traçar um novo desenho topológico na sua relação com o real, guardando distância em relação à lógica infernal do menos e do mais.

Palavras e pílulas foi o tema que escolhemos para este primeiro número. Esse encontro – que reverbera em assonâncias – não foi promovido ao acaso. O tom aqui adotado não será o de uma contraposição. Isso seria não perceber todas as sutilezas que estão em jogo na circulação contemporânea das pílulas que, bem sabemos, não se faz sem as palavras. E nem poderíamos desconsiderar nossa tradição literária que nos apresentou uma “pílula falante”, aquela do Dr. Caramujo, capaz de fazer a boneca Emília passar a habitar o mundo da linguagem para enchê-lo de graça.

Este número de
Clique procura delinear os diversos modos de articulação entre as palavras e as pílulas hoje em circulação num mundo onde, como aponta Éric Laurent em seu artigo, o medicamento tornou-se índice de um modo de gozo de nossa civilização, com suas versões de pharmakon, placebo, anestésico e “mais-de-libido”. Márcio Peter de Souza Leite lança a hipótese de que o futuro da psicanálise irá depender “da possibilidade de incidir sobre o modo de gozo que decorre da opção pelos psicofármacos”. Francisco Paes Barreto nos dirá do uso dos psicofármacos no discurso analítico, “a serviço de uma regulação ou tempero do gozo”, quando isso não é possível de ser efetivado pelas palavras. Ainda sobre a relação entre psicanálise e psicofármacos, transcrevemos aqui uma conversa sobre o tema com psicanalistas que, em função de sua formação como psiquiatras, dão-nos o testemunho de sua incidência na prática clínica. Num paralelo com a Farmácia de Platão, de Jacques Derrida, Sérgio Laia nos apresenta o que poderia estar nas prateleiras de uma eventual “Farmácia de Lacan”. No campo das chamadas toxicomanias, veremos, com Lenita Bentes, como a ciência e seus objetos “fazem supor ao sujeito que ele pode prescindir do Outro”. Como perspectiva de tratamento, Carlo Viganó aponta na direção de “uma Outra dependência, aquela do subjectus”. As palavras e as pílulas se manifestam de modo importante no contexto da relação sexual. Sandra Grostein procura demonstrar como a pílula contraceptiva tornou-se marco de um apagamento da diferença entre homens e mulheres, entre natureza e cultura. Antônio Beneti interroga as conseqüências clínicas diante da possibilidade do Viagra, como “gadget químico”, tornar-se um novo objeto das toxicomanias.

Nosso tema não poderia deixar de se referir ao corpo. Romildo do Rêgo Barros procura delinear o corpo a ser tratado no mundo contemporâneo, como corpo produzido pela ciência moderna, corpo traumatizado que se apresenta como Outro. E, ainda, Marcela Antelo nos apresenta um estudo sobre a “forma pílula”, como aquilo que melhor realiza o conceito de “envoltura”, no sentido de “continente de um conteúdo qualquer que, uma vez introduzido no corpo, deverá desaparecer como continente”, produzindo, desse modo, efeitos terapêuticos a partir do puro invólucro.

Apresentamos, também nesta edição, uma versão impressa dos “Cadernos da Comissão Matemas”.

Trata-se de um estudo relevante a respeito da relação entre a investigação e o ensino da psicanálise, a partir de duas questões: existe uma crise no ensino e na pesquisa da psicanálise? O que é uma investigação psicanalítica? Duas interrogações que buscam atravessar um desfiladeiro: se o analista não deverá se curvar à demanda de saber, também não poderá se esquivar de propor soluções para a angústia de seu tempo.

Aí está, caro leitor, o roteiro do primeiro número da
Clique. Esperamos que estas páginas possam ter o mesmo efeito da “pílula falante” sobre Emília, aquela cujas idéias “hão de ser sempre novidades”.

Ram Mandil

Clique nas capas abaixo para ler o Sumário das edições correspondentes:

   
   

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