CARTÉIS



O QUE É UM CARTEL?*

O cartel é uma invenção de Lacan que visa manter na Escola um trabalho permanente de investigação em relação à psicanálise. Esse dispositivo adota como princípio a elaboração apoiada em um pequeno grupo, cria, porém, por sua estrutura e funcionamento, mecanismos que possam conter os efeitos grupais.
Em 1964, Lacan apresenta pela primeira vez o cartel [1]. Entretanto, alguns anos mais tarde, ele fornece com maior precisão os termos de sua formalização:

“Primeiro – quatro se elegem para prosseguir um trabalho que deve ter seu produto.
Esclareço: produto próprio de cada um e não coletivo.

Segundo – a conjunção dos quatro se efetua em torno do Mais-Um que, embora possa ser qualquer um, deve ser alguém. A seu cargo estará o velar pelos efeitos do empreendimento e provocar a elaboração.

Terceiro – para prevenir o efeito de cola, deve acontecer a permutação, no término fixado de um ano, dois no máximo.

Quarto – nenhum progresso se esperará, salvo o de por a céu aberto, periodicamente, tanto o resultado quanto as crises de trabalho.”[2]


QUEM FAZ CARTEL?
Os cartelizantes são tanto aqueles que praticam a psicanálise como qualquer um que deseje estudá-la. O que une os membros de um cartel é terem interesse pela investigação de um tema comum. Cada cartelizante delimitará uma questão que se agrega a esse tema comum de onde advém o título do cartel. Cada cartel se compõe de no mínimo três cartelizantes e no máximo cinco, sendo quatro a justa medida.


QUAL A FUNÇÃO DO MAIS-UM?
O Mais-Um, que é escolhido pelos cartelizantes, também é um participante do cartel, mantendo, como os demais, uma questão dentro do tema mais amplo de trabalho. Ele, porém, deverá sustentar uma função específica de zelar pelo trabalho dos cartelizantes, incentivando a elaboração de cada um e favorecendo a exposição dos produtos do cartel. O Mais-Um é também o elo com a Escola e responde pela orientação lacaniana no cartel.  


O QUE UM CARTEL VISA?
O “produto de cada um” e um não um produto coletivo é o que se espera ao final de um cartel. Com esse produto pretende-se que cada cartelizante possa constatar e transmitir o que foi tocado na sua relação com o saber analítico. Os produtos do cartel podem ser expostos em espaços diversos da Escola, sendo a Jornada de Cartéis um momento privilegiado de se colocar a céu aberto as elaborações feitas a partir de tal dispositivo.


COMO DECLARAR UM CARTEL?
Cabe ao Mais-Um inscrever o cartel junto a Escola. A inscrição é feita pelo site da EBP, preenchendo-se uma ficha on line, onde serão declarados os seguintes dados: o título do cartel, a data de constituição, os dados dos cartelizantes e do Mais-Um, assim como a escolha por uma das seis rubricas que define a orientação de trabalho daquele cartel:
1. Leitura: conceitos fundamentais
2. Clínica: teorias e práticas
3. Psicanálise e instituição
4. Conexões
5. Política
6. Centros de Atendimento

A partir da inscrição, efetivada pela aprovação do diretor/coordenador de cartéis de cada Seção ou Delegação ao qual o cartel está vinculado, ele passa a constar no Anuário de cartéis, também veiculado no site da EBP.

COMO SE DÁ A DISSOLUÇÃO DO CARTEL?
Num prazo estabelecido por Lacan de um, no máximo dois anos, o cartel se dissolve. Tal conclusão é necessária, pois permite evitar a inércia típica de grupos de trabalho, que acabam por obstaculizar a produção de um novo saber para o sujeito.
Um cartel se dissolve também pelo desligamento, em qualquer tempo, de um de seus membros. Como com o nó borromeano, quando um laço se desfaz, desfaz-se o próprio nó.
Cabe ao Mais-Um participar a dissolução do cartel ao diretor/coordenador de cartéis da Seção ou Delegação ao qual o cartel está vinculado.


ELABORAÇÕES SOBRE OS CARTÉIS: CLÍNICA, EPISTEME, POLÍTICA

O leitor encontrará abaixo links para textos que abordam diferentes aspectos da elaboração teórica sobre o trabalho em cartel. Estes textos serão renovados semestralmente, e para tanto, convidamos os cartelizantes e Mais-Um dos cartéis inscritos na EBP a enviarem para a Coordenação de Cartéis suas produções que se dediquem a elaboração conceitual do trabalho em cartel em suas vertentes clínica, epistêmica, e/ou política. Os trabalhos deverão ser enviados por e-mail para o endereço eletrônico luciola.bhe@terra.com.br.


Entre os textos publicados na Seção Cartéis, no semestre que se inicia temos, além de “Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada, de Jacques-Alain Miller, que continuará entre os textos disponibilizados no site, duas novas contribuições.
Em “Sobre grupos”, Romildo do Rêgo Barros propõe um instigante percurso em torno das noções de sujeito, alteridade, e grupo, partindo da psicologia das massas freudiana, em direção ao pequeno grupo lacaniano, o cartel, analisando sua lógica e funcionamento enquanto dispositivo privilegiado na experiência de Escola.
Ondina Machado, em “O relançamento dos cartéis” parte do contraponto entre os modos de agrupamento que funcionam ao modo das massas, e aqueles orientados pela lógica do cartel, tal qual proposto por Lacan no “Ato de Fundação”. Percorre, para tanto, textos cruciais, através dos quais explicita as especificidades do trabalho em cartel.

Boa Leitura!

Lucíola Freitas de Macêdo
P/ Coordenação das Equipes de Cartéis da EBP


[1]Cf. Lacan, J. “Ato de fundação”. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003.
[2]Lacan, J. D’écolage, 11 de  março de 1980.

 

Cinco variações sobre o tema da “elaboração provocada” - J.A.Miller

Sobre grupos - Romildo do Rêgo Barros

O relançamento dos cartéis - Ondina M. R. Machado

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