BIBLIÔ 31

por Vários autores

A- / A+

EDITORIAL 1

Absolutamente bibliófilo, esse número do Bibliô foi concebido por uma das bibliotecas mais substanciais da EBP, a Biblioteca Ailton Bráz Senna da Seção Minas Gerais da EBP. Os textos surgem de experiências de biblioteca, dos momentos em que elas abrem suas portas para a cidade. Maria Esther Maciel nos delicia com suas palavras sobre a expressão livro de cabeceira. O deleite do livro de cabeceira que só se experimenta na cama, revela os verdadeiros casos de amor que cada um tece com eles. Envolvidos ou não por um enredo, únicos ou substituíveis, a marca do livro de cabeceira, é sua singularidade multíplice. A autora se apoia na incorporação do livro-diário de Sei Shonagon, O livro de cabeceira, na escrituralidade fílmica de Peter Greenaway, no filme do mesmo nome. O filme foi produzido sensualmente, nos ensina.

Ana Lúcia Lutterbach nos transmite sua experiência íntima com o livro como objeto. Difícil não encontrar o que busca nas suas estantes ordenadas ao modo da enciclopédia chinesa de Borges: livros para ser devorados, livros para “não para ler”, livros obra de arte, livros inquietos, livros da máxima fidelidade, livros cobiçados, livros odiados, livros incendiados, livros rasgados, livros descartáveis, e claro, não falta o livro que falta. Em soma, um testemunho de como os modos de gozo ordenam as bibliotecas, a cada um a sua. Teodoro Rennó Assunção nos transmite a perturbação que causa uma biblioteca sendo desempacotada e de como lhe permite por em questão o valor de uso e de gozo do tesouro pessoal. Momento heroico de reflexão bibliofílica, escreve o autor. Passo a passo nos conduz a acompanhá-lo, não sem suspense, a abrir os entulhantes caixotes. Bibliô vive uma epifania com esse ensaio.

Além desses três testemunhos palpitantes contamos com duas colaborações sobre o ato de escrever. O desassossego da experiência da escrita de Suzana Faleiro Barroso traz pérolas sobre a experiência da escritura da clínica e sobre a assinatura do que se escreve como ato maior de enunciação. Já Gilson Iannini no seu texto Retórica da elaboração poética. Notas sobre Freud e a escrita nos introduz nos artifícios retóricos comuns tanto à escrita poética como na escrita freudiana. A lupa focaliza na nas pistas deixadas por Freud sobre a relação de Édipo com Hamlet.

Passo à palavra a Márcia Rosa, diretora de biblioteca da Seção Minas Gerais, inventora desse número 31. De resto surfamos com vocês, assíduos leitores.

Marcela Antelo

EDITORIAL 2

Lendo e escrevendo entre as montanhas de Minas

Começamos por uma BIBLIOTECA LITORAL, atentos para que não ficasse de lado uma discussão sobre a função política de uma biblioteca. Propusemo-nos a fazer chover letras, letrinhas, palavras, imagens, sons, livros etc., de modo tal que os sulcos, desassossegando fronteiras invisíveis, operassem a condição litoral. Entrar em uma Biblioteca Litoral seria tocar os furos no saber escavados pelas letras, pelos sons, pelas imagens, pelos (…), e invocar ou interpelar aí o que resta do gozo no campo da civilização ou da cultura. Se Freud apresentou a civilização através de um mal-estar fundado nos imperativos do supereu, Lacan a apresentou, sucessivamente, como “um empilhamento de mundos que se sucederam em uma loja de destroços” (1962), como “um esgoto” (1971) e, finalmente, propôs que se denominasse cultura “um caldo de linguagem” (1977).

Na abertura das atividades, percorremos a experiência da cidade de Medellín com a Biblioteca España. Debruçamo-nos sobre as “literaturas de testemunho”, tais como a de Primo Levi e as de testemunho de passe, e concluímos com uma discussão sobre “o desassossego da experiência de escrita”.
Um comentário de Freud – “… tornei-me um verme de livros” – nos abriu as trilhas para o segundo encontro: BIBLIOFAGIA. Se Freud se colocou diante do livro no sonho sobre a Monografia Botânica, Lacan nos propôs “comer o livro” para sabermos o que resultaria disso.

Assim, ocupamo-nos dos desassossegos produzidos pelo objeto livro e pelas inquietações com o ato da leitura… de Freud, Lacan e outros.

Nessa ocasião, uma artista plástica realizou uma Performance/Instalação sobre o objeto livro e os nossos convidados nos trouxeram suas produções sobre “Escritos… para não serem lidos”, sobre os “Livros de cabeceira: literatura e artes plásticas”, bem como responderam à nossa pergunta: “Depois de comer o livro, o que sobra?”

Uma lenda nos abriu as portas para A BIBLIOTECA DE CADA UM: “leitor voraz e ciumento, um grão-vizir da Pérsia carregava a sua biblioteca quando viajava, acomodando-a em quatrocentos camelos treinados para andar em ordem alfabética.” Assim, organizamos nosso terceiro encontro a partir da pergunta “E você? Como organiza os seus camelos?”. Para respondê-la, reunimo-nos em torno dos temas “desempacotando minha biblioteca” e “os livros que a gente (não) joga fora”, bem como de uma resenha oral de um livro escolhido: Lacan chinês: poesia, ideograma e caligrafia chinesa de uma psicanálise, de Cleyton de Andrade, publicado pela Edufal em 2015.

Para concluirmos nossa passagem pelas estantes da Biblioteca da EBP-MG, interessar-nos-á comentar AS RELIGIÕES DO LIVRO, mas também discutirmos nossa relação religiosa, profana, sacrílega, …, com os livros. Para isso, perguntaremos aos nossos convidados: “Você reza em qual bíblia?”, “Qual livro proibido você leu escondido?”. Teremos ainda como objeto de uma resenha oral o livro O bem-estar na civilização, publicado pela CRV em 2016, com a presença do autor Francisco Paes Barreto.

Ficam aqui os agradecimentos a todos que vieram até a Biblioteca da EBP-MG! Cada um que deu sua contribuição e esteve presente fez com que as atividades da Biblioteca Aílson Braz Sena gerassem bastante entusiasmo.

Márcia Rosa

 

Download BIBLIÔ 31