Bibliô 24

por Vários autores

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« O que é um livro se não o abrimos?
Um simples cubo de papel e de couro com folhas;
mas se o lemos, alguma coisa estranha acontece,
creio que ele muda a cada vez »
J. L. Borges

EDITORIAL

Anos atrás pensávamos que as bibliotecas fossem um dos recintos cerimoniais mais significativos, onde os leitores marcavam encontro com o gozo da escrita e da leitura assim como um encontro com outros leitores numa espécie de epifânia silenciosa e aconchegante. As bibliotecas como oráculos da cidade onde acudir para decifrar os mistérios do Zeitgeist.

Nos tempos após web, e graças à tirania da transparência, podemos descobrir numa fotografia a lenta agonia de uma delas. A primeira vista parece o mar dos nomes próprios após uma turbulência ou será tal vez o oceano de falsa ciência de Perelman do qual falava Lacan?

Parece que a morte de uma biblioteca acontece quando seus leitores não mais dão as caras. Ou será que todos esses livros estão digitalizados e, como o objeto na psicose, habitam no bolso móbil de cada um? Cada nova liberdade conquistada custa um preço, sabemos. No caso da biblioteca da foto é evidente que os leitores não mais se encontram para respirar o mesmo ar povoado de ácaros e memórias.

Os suportes da letra já não permanecem os mesmos, se multiplicaram, as telas luminosas disputam com os papéis, telas em decadência. Nada temos que lamentar enquanto a este fenômeno, pelo contrário devemos escudrinhá-lo e extrair o máximo de tutano possível. Em 2011-2013 tive a sorte de dirigir as bibliotecas da EBP e as circunstancias me trazem aqui de novo. Desculpem-me de me citar e também de reaparecer, mas não resisto de dizer o mesmo:

“Para nós, a elucidação do ato de leitura, a formação crítica do leitor, o respeito à dignidade da letra e a abertura do tempo de degustar os livros é uma herança da transferência de Sigmund Freud com a palavra impressa, vivificada pela disciplina do comentário, chave do ensino de Lacan”

Algo novo me interessa hoje lhes transmitir que a fotografia anterior e o encontro com minhas colegas de diretoria me fizeram pensar: as bibliotecas que nos interessam são as que enchem de gente, as que ocupem um lugar na cidade sem esconder-se na tranquilidade dos especialistas.

Nossas cidades precisam de bibliotecas como precisam da água, verdade evidente para qualquer um, mas nós podemos fazer com que um por um dos que aí moram, saibam disso.

Dar a conhecer nossos lançamentos, nossas projeções, nossos bancos de dados, e abrir nossos discursos, estantes, mesas e cadeiras aos parlêtres que circulam nas suas redondezas. Seja que toquem e cheirem nossos livros, que baixem nossos pdfs ou assinem nossos aplicativos. Sobretudo que se encontrem nelas.

O propósito declarado da Federação Internacional de Bibliotecas de Orientação Lacaniana (FIBOL) desde a sua fundação em 1990, é a transmissão da descoberta freudiana às comunidades nas quais elas se encontram. E a peste prolifera, como os ácaros e o desejo de leitura.

A equipe que integra sua gestão nela se orienta.

M.A.


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