BIBLIÔ 3 – 1ra Série

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Editorial

“Alguns livros são para ser saboreados, outros para ser engolidos
e alguns poucos para ser mastigados e digeridos.”
Francis Bacon (London, 1561-1626)

O terceiro número do Boletim Eletrônico das Bibliotecas da EBP festeja o início de um novo ano chamando a atenção para o “dia do leitor” quem, segundo a epígrafe extraída de Bacon, não é uma figura fácil de definir. Não podemos perguntar ao amante da mulher do ladrão que foi obrigado a comer o livro até morrer.

A pergunta pelo leitor é urgente em um Brasil de quatorze milhões de pessoas que não podem ler, ou seja, que nem saboreiam, nem engolem, nem mastigam, nem digerem livros.

Há os que com escassa assiduidade [media de 1,3 livro por ano por habitante segundo a triste estatística do Instituto Pró-Livro] e os que afoitos lutam para encontrar a biblioteca pública que os acolha [1 cada 33.000 habitantes]. Mais cruel é a realidade do que o Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais nos faz saber: 400 cidades carecem de bibliotecas.

Por outro lado estão as distinções contemporâneas, entre os leitores: temos os funcionais, sabem ler seu nome e o destino dos buzus, os que somente lêem a Bíblia, receitas ou bulas de remédio e aqueles que sabendo ler os livros não sabem ler os fatos, e ou vice-versa.

Poetas que saboreiam a letra no canto mas não nos livros enchem as praças mas, apostamos que se eles tivessem a sorte de não morar em alguma das 400 cidades sem bibliotecas, e fossem convidados, eles nelas entrariam para sempre voltar.

O trovador Criolo no seu Cálice se queixa do preconceito contra o analfabeto: “Os saraus tiveram que invadir os botecos, pois biblioteca não era lugar de poesia, Biblioteca tinha que ter silêncio, e uma gente que se acha assim muito sabida”. O furo no saber nos ensina que o silêncio da ignorância não é exorcizado pela letra seja que ela se apresente falada, escrita ou cantada.

Neste número damos a palavra a Manoel de Barros da Motta que se pergunta pelo necessário para que haja civilização e Frederico Feu o acompanha na interrogação do para além da identificação com a época. Nosso mural recolhe os feitos.

Em suma, nossas bibliotecas contingentes são aqui e agora necessárias, cuidemos delas, alimentemos elas, mantenhamos as portas abertas – os podcasts são imprescindíveis nesta geografia que pintamos- para, uma por uma, fabricar leitores.

Marcela Antelo

BIBLIÔ 3 – 1ra SERIE