Entrevista com o poeta André Vallias

por Flávia Cera

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Para que serve a arte? Essa é uma pergunta que sempre se repete. Respondê-la definitivamente é impossível. Ou melhor, é possível na exata medida em que, ao fazê-lo, acaba-se com a arte. Ela é esse lugar aberto, vazio e pulsante, uma produtora de efeitos e afetos, um lugar em que os possíveis e impossíveis se reconfiguram continuamente, justamente porque é um lugar de invenção. Manter essa pergunta viva, portanto, é fundamental para que a arte mantenha seu estatuto de intervenção, de estranhamento e diferença. Daí que arte e política não andem separadas. Daí também que a arte tenha pouco a ver com a vivência, com o comportamento, ou com o esclarecimento e esteja mais perto da experiência, no seu sentido forte de ex-perire, de lançar-se ao perigo, ao desconhecido.

Já é sabido que arte e psicanálise dialogam desde sempre. Mais ainda, que esse diálogo é fundamental para pensar os impasses contemporâneos. Hoje, contudo, trata-se menos de pensar o que ambas têm em comum (embora esses pontos sejam fundamentais) e mais de sustentá-las como o espaço em que respostas e perguntas sempre estarão por fazer, que nunca estarão dadas de antemão – fazer com que ambas se nutram de suas diferentes perspectivas.

Assim, poderemos pensar a ação lacaniana e a arte não como atos criadores que visam interpretar o mundo hermeticamente, mas ao contrário, à maneira de Duchamp, como atos criadores que procuram intervir com cortes lá onde tudo é continuidade; que instalam um hiato onde tudo está classificado, nomeado e significado; que apresentam outras possibilidades lá onde tudo é impossível; que observam os pequenos pontos de luz e não o esclarecimento total e absoluto; que apostam nos restos como lugar da experiência, do saber-fazer com o real que cada um inventa; que intervenham com o corpo, seus resíduos, suas imperfeições, lá onde tudo deveria ser belo; que produzam efeitos que sejam, em uma belíssima definição da psicanálise por Lacan (2006, p. 86), “uma chance, uma chance de voltar a partir”. Essa é a proposta desta coluna, intitulada Plasticidades.

Abrimos os trabalhos com uma entrevista com o poeta, tradutor e designer gráfico André Vallias. Seus poemas podem ser lidos, vistos e ouvidos nas redes sociais e em seu site (muitos poemas estão publicados em <http://andrevallias.tumblr.com>). ORATORIO – encantação pelo rio, seu mais recente livro, tem sua versão interativa disponível em <http://www.andrevallias.com/oratorio/>. Esta, aliás, é uma prática do autor: ocupar os espaços das redes. A verbivocovisualidade de suas criações favorece essa ocupação, como podemos ver nos poemas que são apresentados aqui. Outro exemplo é totem – <https://vimeo.com/57330266> -, concebido a partir da inserção do nome do povo Guarani Kaiowá nos nomes dos usuários das redes sociais em apoio à luta indígena. Seu tom fortemente político escapa ao engajamento e à comunicação – não se trata de educar os sentidos. Sua poesia é, antes, uma experiência sensível de leitura dos acontecimentos, e por isso podemos dizer que Vallias “escreve-entre” o que ouve e o que houve, abrindo assim lugares de reinvenção da linguagem, de invenção de lugares, de outros olhares e leituras do mundo.

Flávia Cera
Analista Praticante / Curitiba

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Entrevista com o poeta André Vallias

1) Flávia Cera: Seus poemas muitas vezes são feitos de alterações mínimas, que lembram o belíssimo “Amor / Humor” de Oswald de Andrade: uma letra, uma homofonia, uma metonímia, um jogo de palavras que incide sobre o sentido, seja ele de um significante ou de uma situação, alterando, deslocando, desfazendo, multiplicando ou inventando outros. Você poderia falar um pouco deste procedimento?

Andréa Vallias: Nunca achei que tivesse algo o que dizer. Não fosse a definição de Décio Pignatari – “o poeta é um designer da linguagem” –, não teria me interessado pela poesia. Curiosamente, a palavradesigner advém do mesmo termo latino que deu os verbos desenhar e designar, mas nenhum deles é aplicado à atividade do designer. O designer diagrama (do grego “escrever entre”), e normalmente com elementos que não são de sua autoria: texto e imagens alheias que formarão um conjunto que, este sim, poderá ter a sua autoralidade.

Marjorie Perloff cunhou a expressão “gênio não original” para classificar os poetas que operam com elementos encontrados, ready-mades etc. Prefiro pensar em “não gênio original” porque acredito que há sim uma maneira original de recombinar esse gigantesco depósito que é a linguagem em formas que surpreendam, chamem a atenção do leitor. Não é, no fundo, o que todos os poetas – no sentido mais amplo da palavra: os “fazedores” – fazem?

2) F.C.: ORATORIO – Encantação pelo Rio, seu mais recente livro (embora o poema tenha dez anos), é um poema que escreve a cidade do Rio de Janeiro. Não se trata de uma descrição ou de uma interpretação, mas de uma escrita sobre a cidade e que tem, consequentemente, um forte tom político, assim como muitos de seus poemas, por exemplo: “O poeta é o black bloc da linguagem”. Como a poesia pode intervir na cidade?    

A.V.: ORATORIO é um entrelaçamento de discursos, de fragmentos de discursos, que procura formar um diagrama aberto da cidade onde eu vivo. Foi construído a partir de três poemas que me ocorreram espontaneamente em locais e situações diversas: a época em que Nelci, minha esposa, conduziu a reforma da Casa de Cultura da Rocinha, inaugurada com a presença de Gilberto Gil, então Ministro da Cultura; a lua cheia passando atrás do Cristo Redentor num final de tarde em que subia a ladeira que vai para minha casa; e um morcego sobrevoando a arquibancada do Sambódromo na primeira vez que assisti ao desfile das escolas de samba. Então talvez seja mais acertado dizer que a cidade interveio em mim. Mas creio que todo trabalho com linguagem que seja minimamente consciente pode ser dito político e, portanto, com capacidade de intervir napolis, na medida em que reinstaura o ânimo colaborativo, intersubjetivo, que é origem, meio e fim da linguagem. A “cidadania”, assim, poderia ser encarada como uma poética da convivência.

3) F.C.: E por fim, por que a poesia?

A.V.: Ah, essa é fácil! Porque o resto é prosa.