Uma nova adição?

por Sônia Vicente

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Nos nossos dias, o uso indiscriminado dos objetos viabilizados pela ciência e incitados pelo discurso capitalista nos possibilita estar permanentemente conectados com o mundo, imersos numa rede de imagens que aprisiona nesses pedaços de real, ao mesmo tempo em que aprisiona pela voz e pelo olhar, aí não mais como objetos do desejo. Essa proliferação de objetos/imagens serve para velar o real e se configura como uma tentativa de civilizar o gozo do corpo, tendo também, como efeito, um retorno de gozo sobre o corpo. O que dizemos é que quando a carga libidinal se retira do objeto, objeto a, temos um mundo de sombras e a pretensa liberdade desemboca na segregação.

Nessa via, o império do mercado, ao permitir uma circulação globalizada de imagens/objetos, provoca consequências sobre o falasser ao promover uma rejeição do laço social, uma proliferação de rótulos, de cifras, privilegiando o gozo e influindo, de forma direta, sobre os corpos e sobre o modo de o falasser viver a pulsão.

Dessa maneira, com seu “empuxo” ao consumo, esse império capitalista cala o falasser, colocando como palavra de ordem “somos todos consumidores”. Tomados como objetos descartáveis, tal como os que são oferecidos e regidos por um imperativo superegoico de gozo, tornamo-nos consumidores consumidos.

Para qualificar essa repetição de gozo da atualidade, Miller a denomina adição, que se refere a um fazer repetitivo sobre o qual nada se pode dizer. Trata-se da pura repetição do mesmo, da pura satisfação autoerótica, da iteração do Um do gozo, da repetição de S1, os quais não têm nenhuma relação entre si, um não se articula com o outro.

Assim, como nos disse Ionesco: “ao acariciarmos demais um círculo, ele se torna um círculo vicioso”, realizando uma imediata sensação de bem-estar e euforia que não permite que isso pare, fazendo regressar ao mesmo tempo. Em outras palavras, ao acariciarmos demais as imagens/objetos, incitamos uma substituição ilimitada, que deixa o falasser sem lugar, por não poder ver nem ouvir o outro, nem a si mesmo.

Esse panorama causa impacto frente à indistinção do público e do privado, trazendo modificações na subjetividade de nossa época. Todo esse império de imagens, ao colocar o objeto a no lugar em que deveria permanecer o vazio, tampona-o, fazendo aparecer a angústia, a falta falta, levando o falasser a experimentar uma inquietante estranheza. O vazio que deveria permanecer velado, revestido de véus que o evocam sem preenchê-lo, é tapado sem cessar, fazendo surgir um estranho mal-estar.

Nesse ponto, encontramo-nos com a clínica ao constatar que os fenômenos das adições indicam novos modos de enlaçamento dos falasseres com os objetos e com o Outro. Sendo assim, como “lidar com”, interpretar, os pacientes que chegam ao consultório com o objeto literalmente no bolso, grudados a gadgets que lhes dão a ilusão de que tudo podem saber através daquelas telas que lhes permitem ver, ouvir, jogar, ler, escrever, viajar, fazer sexo, transformando essas imagens na referência de todas as coisas? Tal fato nos impele a refletir sobre o que, no uso compulsivo de imagens e gadgets, se constitui como “droga”, como adição para cada falasser, na medida em que a tecnologia favorece o esfacelamento dos laços sociais e a linguagem aí não faz mediação.

Lacan, no seu último ensino, ao dar ênfase ao sinthome, ao real totalmente disjunto do saber, ao real como um domínio que subsiste fora do simbólico, sem sentido, aponta que sempre haverá um resto e é este que fará frente à ciência e à tecnologia, dando assim a chance de fazer fracassar a “política do controle” que implica injetar, no falasser, objetos fabricados.

Assim, ao falarmos dos efeitos da experiência analítica nos corpos falantes, estamos com Lacan ao defini-la como uma prática que possibilita ao falasser sentir-se melhor na vida e que, a partir das consequências satisfatórias do uso, permite que um corpo seja experimentado como singular, deixando entrever que “Há Um” significante abolido do simbólico se fazendo presente somente pela ex-sistência. Enfim, o nosso resto de esperança é que, pelo laço social instituído pelo discurso analítico, o falasser aceda a que um dizer ressoe ali e a droga rateie, ou seja, perca seu encantamento aditivo.

* Sônia Vicente é membro da EBP/AMP.