PSICOSE ORDINÁRIA – UMA SOLUÇÃO SINGULAR

por Iordan Gurgel

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Trata-se de uma invenção de Jacques-Alain Miller a partir de três conversações clínicas para se discutir uma proposta: que os analistas apresentassem situações clínicas nas quais tenham apreendido algo novo diferente das categorias clássicas. Inicialmente, em “O conciliábulo de Angers” (1996), foram discutidos os “efeitos de surpresa na clínica da psicose”; em 1997, na “Conversação de Arcachon”, trabalhou-se em torno das noções de continuidade e descontinuidade das estruturas clínicas, as quais Lacan havia formalizado. Finalmente, em 1998, com “A convenção de Antibes”, quando apareceu pela primeira vez o termo psicose ordinária. Mas, não se trata de uma categoria de Lacan e sim de uma categoria clínica lacaniana extraída de seu último ensino, que permite uma releitura dos primeiros anos de sua transmissão. Observou-se na terceira conversação que os casos antes considerados raros (em relação à referência a “De uma questão preliminar”…) se revelavam na prática clínica como cada vez mais frequentes.

A partir de então, o sintagma “psicose ordinária” tem se transformado, no Campo Freudiano, em uma categoria clínica lacaniana e, apesar das diversas abordagens e compreensões, vem tomando uma definição cada vez mais apurada.

Portanto, trata-se de uma expressão cunhada por J.-A. Miller à qual fez eco justamente porque contempla uma alternativa à clínica psicanalítica binária: neurose ou psicose.

A neurose, como sabemos, é uma estrutura clínica de características relativamente precisas. Por exemplo, é definida a partir da relação ao Nome-do-Pai, ao menos-phi da castração, com o sentimento de impotência, uma separação evidente entre o Eu e o Isso e um supereu manifesto. Já a psicose é um campo mais indefinido e amplo, com variações diversas que dificultam o diagnóstico.

A orientação proposta por J.-A. Miller é que, se não identificamos a estrutura precisa da neurose, devemos reconhecer que se trata de uma psicose, digamos velada, mesmo na ausência de fenômenos elementares. O diagnóstico de psicose ordinária é difícil de reconhecer, mas é realizado a partir de pequenos índices de foraclusão.

Para Miller, é uma psicose compensada, suplementada, sinthomatizada, medicada, em terapia, em análise; enfim, uma psicose que evolui. É chamada de ordinária porque são psicóticos mais modestos (se tomamos como referência Schreber, que teve uma psicose extraordinária).

A amplitude dessa adjetivação nos leva a uma questão que tem sido tratada em nosso meio: na psicose ordinária há desencadeamento manifesto? Ou, por se tratar de uma amarração eficaz, nunca desencadeará?

Uma forma de pensar o conceito é considerar que a psicose ordinária é um tipo de psicose que não se manifesta clinicamente até seu desencadeamento. Tomemos o exemplo de Schreber, que levou uma vida aparentemente normal por cinquenta e um anos. Podemos então considerar que até o desencadeamento se tratava de um psicótico ordinário? Com Miller, respondemos sim! Ele tinha uma identificação compensatória que o impediu de manifestar a psicose.

Pensar a psicose ordinária como resultado de uma amarração tão eficaz que impossibilita o desencadeamento psicótico é fazer um exercício de futurologia que não é oficio do psicanalista. No entanto, sabemos que há certas psicoses que não desencadeiam e permanecem “compensadas”.

Mas, pode acontecer, como diz Lacan em “De uma questão preliminar”…, uma desordem …na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito…, a qual opera uma desorganização e a psicose pode se manifestar clinicamente. Até então, tratava-se de uma estrutura psicótica sem sintomas psicóticos manifestos – ela estava dissimulada.

Para colher os indícios da desordem no sentimento de vida – que é uma forma de se fazer o diagnóstico de psicose ordinária –, devemos estar atentos e considerar, seguindo Miller, uma tripla externalidade, a saber:

1. Uma externalidade social – é preciso pesquisar a relação do sujeito com a função social. Geralmente, é uma posição negativa expressa na dificuldade de conexão social, seja com a família ou com o trabalho; uma certa desconexão a tudo que esteja relacionado ao chamado mundo social. Mas, o contrário também pode acontecer: uma identificação social que faz equivalência ao Nome-do-Pai. O sujeito está tão aferrado a seu trabalho que ao ser demitido pode desencadear a psicose – seu mundo desmorona porque sua função social era tudo para ele.

2. Uma externalidade corporal – o corpo funciona como Outro para o sujeito, que inventa algo (piercings, tatuagens, adereços etc.) para se apropriar de seu corpo – isso faz função do Nome-do-Pai.

3. Uma externalidade subjetiva – há uma manifestação do vazio não dialetizável. Também se pode observar a posição de identificação com o objeto a – uma identificação real. A pessoa se transforma num dejeto, negligenciando a si mesmo como sujeito.

A noção de psicose ordinária pode estar vinculada à ideia de que não há um operador universal e, por isso mesmo, o sujeito psicótico tem que encontrar uma solução singular de gozar e de fazer laço social. Isso deu lugar a Éric Laurent considerar as psicoses ordinárias como sendo da época da democracia – é um a um – já que não respondem aos significantes-mestres tradicionais regidos pelo Nome-do-Pai como único representante da lei simbólica.

Assim, podemos considerar que as psicoses ordinárias obedecem a uma nova concepção da clínica, baseada na passagem do universal da classificação ao singular de cada caso acompanhando o percurso lacaniano: das estruturas aos modos de gozo.

* Iordan Gurgel é membro da EBP/AMP.