A clínica do parlêtre

por Jésus Santiago

A- / A+

Em nosso último XIº Congresso da EBP – Analisar o parlêtre. Como bem dizê-lo – colocamos a prova no âmbito da clínica analítica a tese de que o ensino de Jacques Lacan introduz uma substituição do inconsciente freudiano pelo parlêtre (falasser) lacaniano. É sabido que uma tal substituição não ocorreu sem um certa maturação de sua elaboração no curso dos anos 70. Quando questionado sobre a pertinência do uso da palavra inconsciente, em Televisão (1973): “Inconsciente – que palavra esquisita!” –, Lacan não se mostra muito aberto a qualquer mudança neste uso. Responde taxativamente: “Freud não encontrou outra melhor e não há por que voltar a isso”. Pode-se antecipar que se a pergunta foi formulada, por J.-A. Miller, é porque o inconsciente deixava de ser um conceito pouco compatível com os avanços substanciais de seu ensino sobre o corpo e o gozo. Pouco tempo depois, Lacan em sua conferência Joyce, o sintoma (1976), faz uma afirmação, até então inédidta:

“que o homem vive do ser (= esvazia o ser) enquanto tem seu corpo […]: daí a minha expressão parlêtre (falasser) que virá substituir o ICS de Freud […].

Rumo ao nosso Congresso da AMP, O corpo falante. Sobre o inconsciente no século XXI, o Seminário de Orientação Lacaniana deve, em tom de estudo e investigação, buscar responder algumas questões que gravitam em torno desse ponto crucial do parlêtre que é não apenas índice de que a nossa época muda com o novo século, mas que também há uma nova orientação dada por Lacan à clínica psicanalítica. As razões que motivaram tal conversão de perspectiva são de natureza puramente epistêmica ou concernem a uma reviravolta na sua própria concepção clínica? É certo que se pode dizer que, neste caso, a clínica interfere no epistêmico e vice-versa. Logo, cabe perguntar: a substituição do inconsciente freudiano pelo parlêtre lacaniano responde a que mutações conceituais no âmbito de seu ensino? Por outro lado, como propõe Miller, deve-se questionar se analisar o parlêtre é o mesmo que analisar o inconsciente no sentido de Freud. Ou ainda, se o que fazemos em nossa prática clínica cotidiana já é uma análise do parlêtre, resta-nos, porém, saber dizê-lo.

Seguem abaixo algumas poucas referências bibliográficas, com a designação das respectivas páginas, referências que podem servir de uma base, bastante inicial, para as discussões do Seminário da Orientação Lacaniana.

* Jésus Santiago/AE-AME da EBP-AMP/ Belo Horizonte.

REFERÊNCIAS:
LACAN, J. O Seminário. Livro 20, Mais ainda. (1972-73). (Lição IV – “O amor e o significante”, p. 50-52 e Lição XI – “O rato no labirinto”, p.148-152).
––––––––– Televisão (1973). In: Outros Escritos, p. 509-516.
––––––––– O Seminário. Livro 23, Joyce, o sintoma (1975-1976). (Lição XIV – Joyce e o enigma da raposa, p. 59-68)
––––––––– Joyce, o sintoma (1976). In: Outros escritos, p. 560-561.
MILLER, J.-A. O osso de uma análise (1997).(Conferência III – “As duas formas do parceiro-sintoma”, p.93-113).
–––––––––––– El partenaire-síntoma (1998). (Classe XVII – “Del síntoma al sinthome”, p. 367-387) (Classe XVIII – “El partenaire-síntoma, medio de goce”, p. 389-416)
–––––––––––– El ultimísimo Lacan (2007). (Classe XII – “Momento de concluir”, p.181-195)
–––––––––––– O inconsciente e o corpo falante (2014). In: http://wapol.org/pt/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&intPublicacion=13&intEdicion=9&intIdiomaPublicacion=9&intArticulo=2742&intIdiomaArticulo=9