Tateando

por Silvia Sato

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Fui viver de favor
Nesse seu coração
Me alojei num lugar
Que é talvez um porão
Não tem luz não tem cor
Mas tem ar do pulmão

(…)

Embora de favor
Morar num coração
É íntimo demais
E o ritmo que faz
De cada batimento
Promessa do momento
É ótimo sentir
Poético ouvir
O som que vem do fundo
Do músculo que é um dos
Últimos locais
De sonho dos casais
Embora no porão
Morar num coração
Refaz

De favor – Luiz Tatit

O artista, que supomos entender de vazio e de bordas, sabe bem dizer o lugar do amor. O álbum Totatiando, com suas melodias falantes, como Zélia Duncan nomeia, usa do poder da poesia para falar do amor, como o que se apresentou para mim, como uma união da palavra falada com o corpo. Especialmente em “De favor”, Zélia oferece não só as falas, mas o cenário onde se encontra de favor num coração pulsante. Encolhida num caixote/porão, com pouca luz, pouca cor, solta o ar do pulmão ao cantar que “Morar num coração / É íntimo demais”.

Dessa união amorosa as palavras contam, para além dos encontros e desencontros amorosos, os efeitos da perturbação do corpo, “o ritmo que faz / de cada batimento / (…) / é ótimo sentir / poético ouvir” e como alimenta a alma com o sonho dos casais, que ao encontrar morada num coração, refaz.

É com a beleza da arte que introduzo essa elaboração em movimento, sobre o tema do próximo Congresso da AMP, a partir do mistério que é o Corpo Falante, esse que levou Lacan a fazer a passagem do Inconsciente ao Falasser.

É como ser falante que Zélia se apresenta e justifica o possível “delírio coletivo” que foi para ela seuTotatiando. E assim como ela não o fez só, aqui não poderia tatear o que poderemos dizer sobre o Corpo Falante sem o que já foi dito sobre esse encontro das palavras com o corpo.

Escolhi um ponto em que, ao falar sobre desejo e gozo, Miller ressalta que o poder da palavra não se dá sem a substância de gozo:

“Se não houvesse a substância do gozo seríamos todos lógicos, uma palavra equivaleria à outra, não haveria nada semelhante à palavra justa, à palavra esclarecedora, à palavra que fere. Haveria apenas palavras que demonstram. Ora, as palavras fazem bem mais coisas do que demonstrar, elas trespassam, comovem, perturbam, inscrevem-se e são inesquecíveis pelo fato de a função da fala não ser apenas ligada à estrutura da linguagem, mas também à substância de gozo.”

Com isso, pode-se dizer que, sem a substância de gozo, não haveria como tatear; as palavras seriam rígidas, sem mobilidade e essa união da fala com o corpo perderia não só seu mistério, mas sua pulsação, sua vivacidade.

O corpo falante carrega consigo, por um lado, sua ligação com a palavra que veicula o comum, a realidade, o plano dos sentidos, das fantasias. Aquela que cria a ilusão no amor, que alimenta os sonhos dos casais, refaz. E por outro, se liga ou é afetado pela palavra que fere, que perturba o corpo, agita, que beira o insuportável.

Do lado do corpo, o gozo com o qual se satisfaz a pulsão se divide entre gozo da fala e gozo do corpo, esclarecendo que de um lado algo pode ser falado e a palavra serve ao sentido; por outro, algo se mantém no silêncio do corpo, onde só se sabe que experimenta, como disse Lacan sobre o gozo feminino.

E o mistério do encontro da fala com o corpo, sustenta assim um desconhecido no ponto de encontro com seu limite. Esse que não se dá pela interdição do laço, mas pelo impossível que se presentifica diante do que Lacan inventou de chamar de real. É subordinado ao real que os semblantes respondem ao que não existe, aquilo que mais além de indicar o vazio de sentido, aponta para o furo onde só é possível dar um salto ou contornar.

É nesse abismo que o contingente age, inventando uma borda que permite fazer uso dos semblantes “se desprendendo do real e envelopando-o”.3 É pela via do sinthoma que se inventa uma saída para aquilo que fica do lado do sem sentido e é também por aí que o amor pode fazer mais do que iludir e fazer sonhar. Ao fazer morada, pode sustentar o hetero a partir de sua relação com o real e deste modo fazer suplência ao que não existe.

E é assim que nós psicanalistas seguimos, tateando por essa via do amor, apostando que no encontro com o real do gozo do Um se possa sustentar o Hetero como meio para acolher o que estamos nomeando como corpos falantes dessa época.


MILLER, J-A. Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011.
MILLER, Op. cit.* Silvia Sato é membro da EBP/AMP.