RECORTES NA CARNE

por Maricia Ciscato

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Um dos textos norteadores para o X Congresso da Associação Mundial de Psicanálise é a conferência “O inconsciente e o corpo falante”, de Jacques-Alain Miller. Nela, Miller destaca, extraindo da obra de Jacques Lacan, o falasser como um outro nome para o “inconsciente”. Para chegar até ele, passa, em um rápido sobrevoo, por importantes conceitos de diferentes filósofos, dentre eles pela “carne” de Maurice Merleau-Ponty. Propomos um ponto de parada aqui para pensar o que podemos extrair da “carne” para o inconsciente no século XXI.

O signo recorta a carne, a desvitaliza e a cadaveriza; o corpo, então, se separa dela. Na distinção entre o corpo e a carne, o corpo se mostra apto para figurar, como superfície de inscrição, o lugar do Outro do significante. Para nós, o mistério cartesiano da união psicossomática se desloca. O que faz mistério, mas permanece indubitável (evidente), é o que resulta do domínio do simbólico sobre o corpo. Para dizê-lo em termos cartesianos: o mistério é, sobretudo, o da união da fala com o corpo. Por esse fato de experiência, pode-se dizer que ele é do registro do real. Convém, então, dar lugar a isto que o último ensino de Lacan propõe: um novo nome para o inconsciente (…) (MILLER, O inconsciente e o corpo falante).

É neste ponto que Miller, retomando Lacan, introduz o falasser como outro nome para pensarmos o inconsciente, um nome que sirva de ferramenta clínica para os analistas e de instrumento de leitura para os sintomas do século XXI. Partimos, então, da carne em Merleau-Ponty para avançar no esforço em localizar teoricamente o falasser, aqui também lido como “corpo falante”.

A carne

Já em Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty traz a ideia de um corpo que seria marcado por uma espécie de tradição pré-pessoal, algo anterior à bifurcação entre sujeito e objeto, que determinaria certo modo de relação com o mundo. É a este corpo que Merleau-Ponty denomina, em O visível e o invisível, carne. Nas palavras de Bernard Baas:

Mas, entenda-se bem, não se trata aqui do corpo tal qual nós o apreendemos na experiência cotidiana, como uma espécie de instrumento perceptivo distinguido do mundo percebido. Trata-se, ao contrário, do corpo enquanto ele não é ainda distinguido do que nós vemos, em uma relação de exterioridade, como sendo o mundo. É isso que Merleau-Ponty chama, em sua última filosofia, “carne”, isso que ele designa algumas vezes como o “pré-humano” (BAAS, “Notre étoffe”, in La cause freudienne, p. 48).

A carne seria, portanto, ontologicamente anterior à distinção “sujeito sentiente e objeto sentido”, anterior à divisão entre sujeito que vê e objeto que é visto, entre visível e vidente. E seria dessa substância inominada que o vidente se extrairia. Eis algumas linhas de Merleau-Ponty sobre a carne:

Se o que se quer são metáforas, seria melhor dizer que o corpo sentido e o corpo que sente são como o direito e o avesso, ou ainda, como dois segmentos de um único percurso circular que, do alto, vai da esquerda para a direita e, de baixo, da direita para a esquerda, constituindo, todavia, um único movimento em suas duas fases. (…) Cabe-nos rejeitar os preconceitos seculares que colocam o corpo no mundo e o vidente no corpo ou, inversamente, o mundo e o corpo do vidente, como numa caixa. Onde colocar o limite do corpo e do mundo, já que o mundo é carne? (MERLEAU-PONTY, O visível e o invisível, p. 134)

Recortes: o corpo e o sinthoma

Estamos, como se vê, com a carne em um âmbito um tanto mítico, pois, apesar de compor-se em uma temporalidade não linear, é concebida como anterior à separação entre sujeito e objeto. Mas nunca – e isso é fundamental – anterior à linguagem. A carne que nos serve para pensar o inconsciente no século XXI é aquela que comporia uma existência miticamente primeira, mergulhada na linguagem (alíngua), marcada por gozo, da qual se recortaria um corpo. A carne “precederia e presidiria” o falasser e o corpo que dela seriam recortados. Da mítica carne poderia se extrair, portanto, objetos e sujeito, que comporiam, por exemplo, um corpo fantasmático.

Quando o inconsciente é conceitualizado a partir da fala e não mais a partir da consciência, ele porta um novo nome: o falasser. O ser de que se trata não precede a fala. É o contrário, a fala outorga o ser a esse animal por um efeito a posteriori. Desde então, seu corpo se separa desse ser para passar para o registro do ter. O falasser não é o corpo, ele o tem (MILLER, O inconsciente e o corpo falante).

Se pensarmos no recorte de um corpo fantasmático, esse corpo extraído da carne pode ser pensado como um “tecido elástico”, composto por um sujeito e seus objetos, que alinhavam um contorno imaginário que lhe permite crer-se uno; balizas simbólicas fisgadas de um Outro inventado; e a presença irruptiva e intermitente de um gozo, extimidade que se apresenta à sua revelia e que ameaça sua integridade, pois o recorte do corpo não deixa de carregar consigo os acontecimentos de gozo.

Sigamos com o exemplo do corpo fantasmático. Em análise, desdobram-se, então, outros recortes. A operação analítica, ao desmontar, cortar, rasgar e retraçar o corpo fantasmático, simultaneamente localizará, nos acontecimentos de corpo, aberturas. Revira-se, nessa operação, a relação do falasser com o gozo do corpo, possibilitando que este passe, por exemplo, da angústia à fruição, da impotência ao impossível, da inundação à localização, da paralisia ao viver. Recorta-se, assim, do corpo fantasmático, um “corpo sinthomático”, pois o gozo que se apresenta ao falasser enquanto acontecimento de corpo – esse gozo “mudofalante”, que Miller define como sendo da ordem do sinthoma –, ao mudar de estatuto no processo analítico, produz também transformações na forma do falasser vivenciar seu corpo e colocá-lo a serviço da vida.

* Maricia Ciscato é membro da EBP/AMP.