“O Corpo não fala, ele serve para falar”

por Ana Tereza Groisman

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Até abril de 2016, estaremos debruçados sobre o corpo e seus mal-entendidos. Será possível à psicanálise decifrar o corpo? De que corpo falam os psicanalistas? O Corpo falante, conceito-chave de nosso próximo congresso da AMP, empurra nossa comunidade ao trabalho. Numa tentativa de contribuir para a reflexão sobre o tema, destaquei o parágrafo abaixo:

Sob o desejo, uma vez atravessada sua tela fantasmática, há o que não mente e que não é uma verdade. É o que denominamos gozo – o termo foi lembrado. O desejo é o semblante da libido, sua mentira mental. O gozo é o que, da libido, é real. É o produto de um encontro aleatório do corpo com o significante. Esse encontro mortifica o corpo, mas também recorta uma parcela de carne cuja palpitação anima todo o universo mental. O universo mental não faz senão refratar, indefinidamente, a carne palpitante a partir das mais carnavalescas maneiras e a dilata até proporcionar-lhe a forma articulada dessa ficção maior que chamamos campo do Outro (MILLER, 2013, p. 15).

Pensei em retomar essa citação para tentarmos esclarecer um pouco mais sobre o ponto de articulação possível entre o corpo marcado, mortificado pelo significante, e o corpo enquanto carne pulsante. Ambos “servem” para falar, mas enquanto o primeiro está limitado pelo campo do sentido, submetido à ficção do Outro, “serve” também para não dizer e ao falar tenta silenciar o que do gozo poderia advir. O outro corpo, corpo carne, funcionaria mais como força pulsante, gozo jaculatório que não se dobra ao sentido e, por isso mesmo, não é dócil ao dito; porém, ao mesmo tempo, não contribui em nada ao não dizer, ele não se decifra, mas empurra em direção ao ciframento.

O corpo não fala, mas ele serve para falar: por esse período ainda me soar enigmático, iremos explorá-lo um pouco mais. Acho que ele pode ser interpretado de várias maneiras. Sua primeira oração – “o corpo não fala” – pode ser lida como: o corpo goza em silêncio, mas a partir desse gozo silencioso, desse ponto de gozo fixado no corpo (um gozo opaco), esse corpo se torna vivo, pulsante, um reservatório de libido, e por isso mesmo impossível de silenciar. Falamos, então, do que empurra e motiva o sujeito da fala. Nesse sentido, consigo entender a segunda oração que compõe o período: “ele serve para falar”.

Porém, ainda resta um incômodo: Miller não escreveu que o corpo não fala e impulsiona a falar, ou empurra, provoca… Ele escreveu “serve”, o que soa bastante curioso quando colocamos aquele período em sequência com outro: “se o homem inventou a relação sexual, foi para velar o horror dessa carne percorrida por um estremecimento que não cessa e que é sem porquê”. Estamos falando de um gozo que não serve para nada, é “sem porquê”, como diz o texto, nem pra quê, eu acrescento.

Então, esse corpo/carne que goza de um gozo que não serve para nada, serve para falar? Serve para falar dessa dimensão de gozo que escapa à fala dotada de sentido? A fala, da qual comumente nos servimos, fracassa em dizer do gozo que “percorre e estremece a carne” e é, ao mesmo tempo, o artificio de que dispomos para seguir no esforço de dizê-lo. Se silenciar o gozo se mostra impossível, só nos resta fazê-lo falar. A interpretação, então, visa justamente tocar neste ponto do impossível de dizer, “para saber fazer com este gozo sem a muleta, a tela, os artifícios do inconsciente simbólico e suas interpretações”, como diz Miller (2013, p. 16).

“O gozo, no âmbito do inconsciente real, permanece insolúvel”. Miller (2013, p. 16), em seu texto, aponta de maneira precisa que enquanto o insolúvel permanece insuportável não há final de análise. É preciso encontrar o ponto de reviramento onde há satisfação no insolúvel. Não basta suportar o insolúvel, é preciso encontrar aí uma satisfação. Proponho aqui nos remetermos à obra de Adriana Varejão, Parede com incisões à la Fontana, numa tentativa de entendermos melhor o que se passa com a interpretação quando incluímos a dimensão do corpo vivo no dizer. Retomando um texto de Lacan (1977), ele diz que a tipologia não é uma ilustração, nem uma demonstração, mas antes uma “mostração”. Acho que em relação à arte podemos nos apropriar desse termo. Ela é uma mostração, pois possibilita colocar em cena o real da coisa em si. O que entendo aqui é que a ilustração viria depois de um texto, uma imagem que ilustra um dizer, e o que vimos na obra de arte é o avesso disso, ela antecipa um texto e provoca um dizer.

VAREJÃO, A. Parede com incisões à la Fontana. 190 x 200 cm. 2000.
VAREJÃO, A. Parede com incisões à la Fontana. 190 x 200 cm. 2000.

A obra de Varejão me pareceu interessante porque, apesar de num primeiro momento poder apontar para uma dicotomia entre o dentro e o fora, duas dimensões distintas de um corpo, uma externa e outra interna, também nos leva a pensar que a “parede” só pode ser vista como um corpo na medida em que apareça o rasgo, o furo, o traço. Suas vísceras expostas vivificam o corpo cadaverizado de outrora. Como a própria autora da obra diz: “não há só martírio, há aqui paixão” (SCHWARCZ, L. M.; VAREJÃO, A., 2013). Nisso há uma bela mostração do que visamos e vivemos como efeito de interpretação.

Penso que a torção, que em geral observamos nos testemunhos de passe, chega ao ponto de mostração de como o que era experimentado como martírio passa a iluminar as paixões. O martírio, parece-me, tem a ver com o fato de que esse gozo opaco não serve ao Outro, não se dobra ao significante e não se esgota nunca – ele é vivido como um entrave. E a finalidade de uma análise passaria então por se servir de um gozo que não serve a mais ninguém. “Um corpo que não fala, mas serve para falar”: por fim, acho que podemos entender esse período como se servir desse corpo que goza em silêncio para consentir com uma fala que não visa silenciá-lo.


Referências:
LACAN, J. Propos sur l’histery, 1977. Disponível em: <http://www.ecole-lacanienne.net/>.
MILLER, J.-A. Falar com seu corpo. Opção Lacaniana, n. 66, ago. 2013, p. 11-17.
SCHWARCZ, L. M.; VAREJÃO, A. Pérola imperfeita: a história e as histórias na obra de Adriana Varejão. Rio de Janeiro: Cobogó, Companhia das Letras, 2013.
* Ana Tereza Groisman é membro da EBP/AMP.