Falar a língua do corpo  (sinopse)

por Angela Bernardes

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“Falar a língua do corpo” é o título do seminário da ECF “Estudos lacanianos” de 2014-15, coordenado por Éric Laurent. A proposta para esse ano foi a de fazer itinerários variados no ensino de Lacan, tomando por referência, a cada sessão, um texto mencionado por Jacques-Alain Miller na conferência de apresentação do tema do X Congresso da AMP, no Rio, em 2016. Miller expõe aí, tomando a perspectiva do último ensino de Lacan, a vontade de substituir o Inconsciente freudiano por um termo novo: o corpo falante ou o parlêtre. O desafio de Lacan era o de situar de maneira precisa como o significante, ou mesmo a fala, impacta o corpo. Trata-se de apreender o mistério da união da fala com o corpo para além do mito freudiano da pulsão, que unia, misteriosamente, o Quantum libidinal e a representação.

Uma das preocupações que Laurent pretende que se faça presente ao longo de seu seminário é em relação ao paradigma cognitivo contemporâneo da psicologia, que quer calar o corpo, reduzido ao comportamento, para exaltar apenas o processo cognitivo, mesmo ao qualificá-lo de emocional.

A primeira sessão do seminário, em 25/11/2014, introduziu o tema a partir de “Radiofonia”, que embora não tenha sido explicitamente mencionado na conferência, é um texto que marca uma ruptura particular na concepção de Lacan sobre as relações entre inconsciente e corpo. Laurent define um “momento Radiofonia” para situar o lugar que esse texto ocupa. Lembra que é o primeiro grande texto de Lacan depois do Colóquio de Baltimore “Structure, Sign, and Play in the Discourse of Human Sciences” no qual se escuta, pela primeira vez, “a música pós-estruturalista”. Uma boa parte dessa primeira lição do seminário de Laurent situa o diálogo entre Derrida, Lacan e Deleuze nessa ruptura com o estruturalismo. Ele assinala que, em Radiofonia, Lacan se separa das Ciências Humanas, cujo estruturalismo separava sujeito e gozo. Laurent faz uma leitura da resposta à segunda pergunta (Outros Escritos pp.405-413), tecendo um longo comentário sobre a teoria dos incorporais estóicos, mencionada por Lacan em diálogo com Deleuze.

Em Radiofonia, Lacan evoca a carne que é marcada pelo signo e explora a articulação do corpo – como superfície de inscrição – com seu gozo. A tônica aí é colocada sobre o gozo dos objetos ae não sobre o gozo fálico marcado de um menos. “Falar a língua do corpo”, nesse primeiro sentido trabalhado por Laurent, implica em abordá-lo pelo excesso e pela vertente da fantasia.

Abordando a relação do homem com os objetos da ciência, tal como Lacan apresenta no seminário 17 – contemporâneo de Radiofonia – Laurent conclui a aula afirmando que a quantificação generalizada da era digital só revela o não quantificável do gozo e o excesso dos instrumentos de gozo que não cessam de não entrar no corpo do sujeito.

O curso está disponível on line na Radio Lacan e essa primeira aula pode ser escutada em http://www.radiolacan.com/es/topic/361 .

* Angela Bernardes é membro da EBP/AMP.