Entrar em análise com o corpo falante?

por Rodrigo Lyra Carvalho

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Em abril de 2016, a cidade do Rio de Janeiro acolherá o X Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, sob o título “O corpo falante: sobre o inconsciente no século XXI”.

Como é de praxe na AMP, seus Congressos não são um momento exclusivo de reflexão e pesquisa, mas sim o desenlace de um trabalho possante e entusiasmado, deslanchado tão logo o tema é proposto por Jacques-Alain Miller.

Para dar corpo a esse movimento coletivo, o X Congresso conta com duas plataformas virtuais: o site (ver) e o boletim multilíngue Skabô, produzidos e editados por suas Comissões Organizadora e Científica. Aqui no DR, o “Corpo falante” terá seu cantinho. Nessa rubrica, os membros da Escola Brasileira de Psicanálise serão convocados a desdobrar, com o estilo brasileiro, aquilo que as multilínguas da AMP produzem sobre a provocante ideia de um inconsciente corpo falante.

Nesse número de entrada do “Corpo falante” no DR, nada mais justo que começar pelo começo: olhar para as entradas em análise através das lentes do corpo falante provoca o quê? Essa questão, bem como algumas das articulações que se seguem são inspiradas nas reuniões organizadoras do X Congresso que se realizam no Rio de Janeiro e, sob a coordenação de Marcus André Vieira.

Para melhor articular a pergunta mencionada, proponho uma contraposição de duas passagens lacanianas sobre o início do tratamento. Embora separadas por um intervalo de apenas três anos (junho de 1969/junho de 1972), elas podem ser tomadas como paradigmáticas de abordagens bastante distintas. A primeira, clássica; a segunda, mais enigmática e arriscada, que, como tudo o que diz respeito ao corpo falante, percorre aquilo que Miller qualifica de “as vias obscuras”, onde, “mediante alguns clarões”, Lacan conseguiu “destacar um realce que nos instrui” (2014).

A primeira:

“Digam vocês o que disserem, existe o Outro, o Outro que sabe o que isso quer dizer (…). No início da experiência analítica, não temos nenhuma dificuldade para incitar [o neurótico] a confiar nesse Outro como o lugar em que o saber se institui, no sujeito suposto saber.” (1969/2008: p.333).

A segunda:

“Quando alguém me procura no meu consultório pela primeira vez e eu escando nossa entrada na história com algumas entrevistas preliminares, o importante é a confrontação de corpos. É justamente por isso partir desse encontro de corpos que este não entra mais em jogo, a partir do momento em que entramos no discurso analítico”. (1972/2012, p.220).

A abordagem clínica inerente à primeira passagem já foi objeto de um incomensurável esclarecimento conceitual. Não vou retomá-lo longamente, apenas destacar alguns aspectos essenciais.

Nesse primeiro viés, a entrada em análise é análoga à produção de um terceiro, o Outro inerente ao próprio convite à associação livre. Não se trata aí, portanto, do saber do analista, nem daquele que o paciente acredita possuir e manejar, mas de um Outro, saber em espera, gerado pelo ato de falar livremente, sem cercear o fluxo das palavras com as amarras da comunicação consciente.

Vale a pena ressaltar o otimismo lacaniano, a “nenhuma dificuldade” que ele encontra para materializar essa função terceira. Uma facilidade que depende, sem dúvida, do espírito da época e da crença ou, para usar o termo de Lacan, da confiança no Pai.

Existe assim, classicamente, uma homologia entre o sujeito suposto saber e a função paterna, afirmada por Lacan com franqueza perturbadora: “O sujeito suposto saber é Deus, ponto, só isso” (1969/2008, p.273). Essa configuração social é compatível com uma busca da verdade como um material escondido, guardado a sete chaves no cofre do pecado original. Temos aí uma espécie de estrutura elementar que dá um clima, um tom, uma aura ao tratamento analítico.

Ora, é justamente essa aura que parece cada vez menos operativa.

Passemos, então, à segunda passagem: “confrontação de corpos”, “encontro de corpos”… Quando se considera o longo esforço lacaniano de destacar a importância clínica do simbólico na produção de um terceiro, essa referência ao corpo como motor da entrada em análise é bastante intrigante. Mas de que corpo Lacan está falando?

Não se trata, certamente, de um confronto físico, um judô analítico. Deparamo-nos com a estranha sugestão de um encontro sem toques. Os chamados objetos corporais talvez fornecessem uma pista. Voz e olhar foram introduzidos por Lacan na série dos objetos pulsionais freudianos, marcando o lugar de uma corporeidade ainda mais paradoxal: não apenas meio dentro, meio fora, mas também meio corpo, meio nada.

Ocorre que estamos habituados a pensá-los no avesso do corpo imaginário, esse que se apresenta à análise como completude, prova de uma integridade que as pulsões insistem em perturbar. Nesse caso, a distinção sujeito/Outro/objeto é um dado a priori. A confiança no Outro está lá de saída e o trabalho clínico de desfiar as identificações subjetivas acaba por isolar os objetos pulsionais.

A hipótese que propomos, de enxergar na “confrontação de corpos” o “corpo falante”, introduziria a possibilidade de uma dinâmica em que a distinção sujeito/Outro/objeto não esteja previamente estabelecida. Se tomado como “corpo falante”, tal como Miller o desenvolve, o “encontro de corpos” destaca a necessidade da encarnação, no início da análise, de um gozo que dê notícias desse momento mítico de indiferenciação [1]. A ênfase não é colocada na confiança e na expectativa, mas na certeza que brota de um encontro.

Ocorre que Lacan não desiste da instituição desse terceiro. Mesmo que apresentado com distintas facetas, o sujeito suposto saber segue firmemente presente em seu último ensino. Vejamos o que ele tem a dizer em 1977:

“O sujeito suposto saber, a partir do qual eu defini a transferência, é suposto saber o que? Como operar? (…) O que seria necessário (…) é que ele [o analista] se desse conta do alcance das palavras para seu analisante, o que incontestavelmente ele ignora” (15 de novembro 1977, inédito).

Em lugar da instituição do enigma, da função de um saber não sabido, vemos a indicação de um resgate a ser feito do alcance das palavras. Podemos pensar que, na ausência do Pai, é através de um “confronto de corpos” que esse resgate se torna possível e que o sujeito suposto saber se institui?

Ao refletir sobre essa difícil dinâmica, me ocorre uma metáfora com a forma como a ciência lida atualmente com o enigma da origem. O desencantamento do mundo não calou a curiosidade humana com a origem do Universo, mas certamente a pergunta deixou de ser dirigida a Deus. O que foi feito então? O maior experimento científico de todos os tempos, capaz de reunir, em um impressionante esforço colaborativo, cientistas de 113 nacionalidades distintas: o CERN, o gigantesco acelerador de partículas, que atravessa três países.

O que os cientistas fazem ali? Basicamente, um confronto de corpos. Partículas aceleradas à velocidade próxima à da luz colidem e produzem resíduos. Nesses resíduos, busca-se ler as pistas que testemunhem sobre a origem.

Em meio aos tantos poréns que a metáfora exigiria, uma ideia se salva. O ponto original, obscuro e inapreensível, cujo segredo era guardado por Deus, torna-se agora manejável a partir de um confronto de corpos. Somente a partir de seus resíduos se recupera o vislumbre de umatranscendência terceira, que a psicanálise e a ciência incluem de formas distintas.

Nossos cientistas buscam, acima de tudo, provar a existência do Bóson de Higgs, ironicamente apelidada de partícula de Deus, que forneceria massa (corpo) a todas as demais partículas e explicaria a origem do Universo.

Em psicanálise, o mistério que nos toca e a origem que nos concerne são mais modestos: “o mistério da união da fala com o corpo” (Miller, 2014).

Curiosamente, Lacan nos alerta sobre a vertente divina em nosso sujeito suposto sabere nos convida a colocá-lo em marcha por outras vias. Em lugar de “fazer o neurótico confiar”, resgatar “o alcance das palavras para seu analisante” (Lacan, 1977). Nos termos de Mandil, “regenerar o impacto traumático da linguagem sobre o ser falante” (2003, p. 17).

Como em toda bipartição, corremos o risco de um esquematismo clínico exagerado, visto que aconfiança e o alcance das palavras sempre estão intimamente articulados. Ainda assim, parece ser frutífero observar a mudança de ênfase nas passagens de Lacan.

O “mistério da união da fala com o corpo” segue sendo o ouro da psicanálise. O que se modifica são as estratégias clínicas para incluir esse ponto inapreensível. Se o apoio em uma transcendência bem instalada na cultura está fragilizado, Lacan parece indicar a necessidade de uma materialização mais precoce desses detritos na cena analítica. Trata-se de outra roupagem para o sujeito suposto saber e de outra estratégia na transferência.

Digamos, por ora, que o corpo falante pode não ser o Bóson de Higgs, mas introduz no universo planificado das imagens que tudo mostram a materialidade dos pequenos mistérios singulares. Poderia assim a fala sob transferência seguir contando com o seu encanto?

* Rodrigo Lyra Carvalho / Membro da EBP-AMP / Rio de Janeiro.

 [1] A articulação entre o corpo falante e uma satisfação não enquadrada pela montagem sujeito/Outro/objeto vem sendo longamente trabalhada no Seminário Lições do Passe, coordenado, na EBP-Rio, por Marcus André Vieira.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LACAN, J. (1967/2003) “Proposição de 9 de outubro de 1967 para o psicanalista da Escola” in Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE.
________. O Seminário: Livro 16. De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: JZE, 2008.
________. O Seminário: Livro 19. …ou pior. Rio de Janeiro: JZE, 2012.
________. O Seminário, Livro XXIV, Inédito, 1977.
MANDIL, R. Os efeitos da letra. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2003.
MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante: Apresentação do tema do X Congresso da AMP. 2014.