OS MUITOS CORPOS DO ESPÍRITO

por Sergio Mattos

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“O verdadeiro início da atividade científica consiste, antes, na descrição de fenômenos, que serão depois agrupados, ordenados e correlacionados. Já na descrição não se pode evitar a aplicação de determinadas ideias abstratas ao material, ideias tomadas de algum lugar, por certo não somente das novas experiências.”(Freud) (1)

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro nos mostra como a noção de corpo construído é intrínseca à vida ameríndia. Nos Yawalapíti, o corpo humano é submetido a processos intencionais e periódicos de fabricação: inumakiná (Umá, fazer ou fabricar). As relações sexuais são o início dessa tarefa. Fabricar significa também “mudar o corpo” e consiste em intervenções que conectam corpo e mundo: fluidos vitais, alimentos, eméticos, furos, escarificações, pedaços de outros corpos, penas, peles, óleos. Porque o que faz um corpo (humano ou não) é o modo pelo qual este é afetado: o que ele come, como se move, como se comunica, onde vive, se é gregário ou solitário. O corpo é um feixe de afecções e de capacidades. (2)

O corpo das espécies, sendo o modo pelo qual o espírito universal indiferenciado se particulariza, faz de tudo que existe um possível enunciador, capaz de autorreflexão, em posição de sujeito, desde a perspectiva de um corpo. Corpo animal e humano são instrumentos e não falsa aparência de uma essência; são dispositivos que especificam o espírito. Por isso é preciso construí-lo desde cedo. No perspectivismo ameríndio, corpo não é sinônimo de realidade em si, mas conjunto de modos de ser que constituem um habitus.

Trata-se menos de um processo de ‘desanimalizar’ pela cultura do que desparticularizar algo inicialmente demasiado genérico, diferenciando-o de outros coletivos humanos e de outras espécies. Não se trata de culturalização de um substrato natural, mas de fabricação. E ao lado da fabricação, a metamorfose – yaka –que reintroduz o excesso e a imprevisibilidade na ordem do socius. Vestir uma máscara ritual é ativar os poderes de um corpo outro, como no uso dos trajes de mergulho respirando sob a água.

Com a aquisição da linguagem, passa-se o mesmo para os índios: ela se dá no nível dos hábitos corporais. Aprendê-la supõe que ela toque o corpo com o sexo, os fluidos fisiológicos, a alimentação, com uma materialidade encarnada que informa o envolvimento com a linguagem. Viveiros de Castro conta que quando antropólogos vão morar com ameríndios e aprender suas línguas, eles necessariamente têm problemas enormes no aprendizado e que é comum surgirem anedotas a esse respeito, como a que segue. Depois de seis meses ele vai se queixar junto aos seus anfitriões: “Sua língua é terrivelmente difícil, é um trabalho muito lento, não avança”. Então as pessoas respondem: “É preciso que você coma nossa comida para aprender nossa língua.” No fim de duas semanas, o antropólogo diz: “Não faço outra coisa a não ser comer da sua comida e as coisas continuam iguais.” A resposta é: “Durma com uma das nossas mulheres, a língua vem.” O sujeito (admitamos que ele seguiu o conselho) volta depois de alguns meses: “Continua tudo igual”. Desanimadas, as pessoas dizem então: “Nesse caso, você precisa tomar um de nossos alucinógenos”. Aí, comenta Viveiros de Castro, “é preciso ser realmente idiota pra que a receita não funcione…”. Até porque, a essa altura, o antropólogo já terá feito algum progresso na língua.

(Guerreiros Yalauapíti pintando-se para um ritual. Foto: Viveiros de Castro)

Neste contexto, as identidades – individuais, coletivas, étnicas ou cosmológica – exprimem-se assim por meio de “idiomas” corporais.

Para concluir, como lembra Viveiros de Castro em relação a Lévi-Strauss, em um esplêndido parágrafo de sua homenagem a Rousseau:

“Começou-se por separar o homem da natureza, e por constituí-lo em reino soberano; acreditou-se assim apagar sua característica mais inquestionável, a saber, que ele é antes de mais nada um ser vivo. A cegueira diante dessa propriedade comum abriu caminho para todos os abusos. Nunca como agora, ao cabo dos quatro últimos séculos de sua história, pôde o homem ocidental se dar conta de como, ao se arrogar o direito de separar radicalmente a humanidade da animalidade, concedendo à primeira tudo aquilo que negava à segunda, ele abria um ciclo maldito, e que a mesma fronteira, constantemente recuada, servia-lhe para afastar homens de outros homens e para reivindicar, em benefício de minorias cada vez mais restritas, o privilégio de um humanismo que já nasceu corrompido, por ter ido buscar no amor-próprio seu princípio e seu conceito” (LÉVI-STRAUSS).


1. FREUD, S. As pulsões e seus destinos. Trad. Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. p. 15. (Obras Incompletas de Sigmund Freud)
2.  CASTRO, Eduardo Viveiros de. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de Antropologia. São Paulo: CosacNaify, 2002. p. 380.

* Sergio Mattos é membro da EBP/AMP.