Extimus, intimus

por Gilson Iannini

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O universo inteiro está estruturado em nove círculos, ou melhor, esferas, a primeira das quais é a celestial, êxtima, que abraça todas as demais. Ela é o próprio deus supremo, que contém e mantêm todas as outras unidas.

(Marco Túlio Cícero, O sonho de Cipião, 6,17)

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O que se passa na intimidade do consultório de psicanálise é, realmente, da ordem da intimidade? O analista é íntimo de seu analisante? Não resta dúvida de que o paciente diz em análise coisas que talvez nunca dissesse a alguém, talvez nem a ele mesmo. São confissões, revelações, impensados que compõem um outro discurso. Não é incomum que o analisante se surpreenda com seu próprio dizer. O inconsciente é isso. Mas isso faz do analista íntimo de seu analisante? Esse paradoxo dá a medida do neologismo proposto por Lacan: extimidade. A posição do analista na cena do consultório é êxtima. Ele está de fora. Mas esse fora não é exatamente o exterior puro.

A palavra “extimité” é um neologismo criado por Lacan. Contudo, é uma palavra que atende a todos os requisitos de uma palavra bem formada. A oposição ao congênere “intimité” basta para indicar isso com clareza. O prefixo “in” foi substituído pelo prefixo “ex”, mais ou menos do mesmo modo como “intérieur” opõe-se à “extérieur”. Em português, a morfologia do vocábulo não é diferente: “ex-timidade” (neologismo) opõe-se a “in-timidade”, assim como “ex-terior” opõe-se a “in-terior”. Isso não quer dizer que “êxtimo” seja equivalente a “exterior”: apenas do ponto de vista morfológico as duas palavras são semelhantes. Mas a morfologia não basta. A topologia implicada na oposição entre “interior” e “exterior” não é a mesma da topologia implicada na oposição entre “íntimo” e “êxtimo”. Isso ficará claro quando abordarmos a análise linguística proposta por Freud para o “Unheimlich”. Por ora, vale anotar que, se nas línguas neo-latinas como o francês e o português, “êxtimo” e “extimidade” são neologismos, em latim existe o vocábulo “extĭmus”.

No Dicionário etimológico do latim-francês, de 1932, Gaffiot registra: “Extĭmus (extŭmus), 1. situado na extremidade, que está na ponta, o mais distante; 2. Desdenhado, desprezado. ” A principal referência é o capítulo 6 da República de Marco Túlio Cícero, conhecida como “O sonho de Cipião”. A história da sobrevivência do texto de Cícero é uma verdadeira saga. O texto original foi descoberto em um palimpsesto. Por baixo de Comentário aos Salmos, de Agostinho, Angelo Mai descobriu, por volta de 1819, restos de letras de outro escrito, copiado provavelmente por volta do ano 700. O manuscrito em questão fora trazido à Biblioteca Vaticana por monges beneditinos em 1618. Embora tivesse sido raspada pelo copista, procedimento comum à época, a escritura original havia penetrado no pergaminho. Escondido sob o texto agostiniano, o texto de Cícero sobreviveu.  No caso do capítulo em pauta, “O sonho de Cipião”, o texto de Cícero sobreviveu graças ao comentário de Macróbio, Commentarium in Ciceronis Somnium Scipionis, que copiou grande parte do texto original.

Os dois sentidos de “extĭmus”, anotados por Gaffiot são preciosos para nós: o mais extremo, mais distante é também aquilo que é desprezado, desdenhado. Não é justamente isso que está em jogo no objeto a?

Num certo sentido, podemos pensar “extimidade” como o correlato lacaniano do conceito freudiano de “Unheimlich”. O artigo de Freud com esse título (Das Unheimliche, de 1919) não por acaso começa com uma longa análise linguística e etimológica da palavra unheimlich. Freud transcreve longas citações de diversos dicionários; especula sobre palavras equivalentes em línguas estrangeiras, como o latim, grego, inglês, francês, italiano, português, árabe e hebraico; compara diferentes dicionários, para finalmente concluir essa primeira parte de seu artigo com a ideia de que “heimlich” é uma palavra cuja evolução semântica ruma em direção à ambiguidade, terminando por coincidir com seu oposto. Nesse caso, o prefixo “un-”, morfema que denota oposição e que faz parte da composição de antônimos, parece funcionar com outra lógica. É a esse exercício que se consagra o texto de Freud. Mais ou menos do mesmo modo, podemos dizer que a topologia proposta por Lacan para a “extimidade” é homóloga a essa. Aquilo que é mais exterior e, no entanto, mais interior; que está mais longe e, contudo, mais perto; que é mais estranho e ao mesmo tempo mais familiar, dá-nos uma mostra do que está em jogo na complexa relação entre intimidade e extimidade. A extimidade é oposta à intimidade na exata medida em que se opõe e coincide com ela.

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A psicanálise ocupa um lugar sui generis na disposição dos saberes modernos. Lacan dedicou muito esforço para pensar um espaço de constituição da racionalidade psicanalítica que mostrasse ao mesmo tempo sua inserção na racionalidade moderna e seu ponto de ruptura com esta. Não por acaso, o texto de Lacan abunda de referências a Descartes ou Hegel, chegando a afirmar equivalências (como “o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência”), assim como, no mesmo gesto, mostra a distância intransponível entre os domínios.

As estratégias epistemológicas de constituição desse espaço atópico são várias. Ao mesmo tempo em que conhecia bastante bem a literatura psicanalítica dos psicanalistas de seu tempo, incluindo Melanie Klein e Winnicott, Lacan procurou tensionar a psicanálise com o que havia de mais contemporâneo em seu tempo: a linguística estrutural, a etnologia, as matemáticas. Qual o estatuto das incursões lacanianas nesses domínios exteriores à psicanálise? Qual o estatuto das inúmeras referências, explícitas e inexplícitas, a Hegel, por exemplo? Em que medida, quando Lacan aprofunda uma discussão com Hegel, por exemplo como a que ocorre em “Subversão do sujeito e dialética do desejo” trata-se de uma referência “externa”? O que pretendo sugerir é que a modalidade dessas referências obedece mais à lógica da extimidade do que da exterioridade. Ou seja, quando Lacan se refere a Hegel (ou à linguística estrutural ou às matemáticas), ele visa justamente aquilo que está mais longe e, ao mesmo tempo, mais próximo do objeto da psicanálise. Quando ele fala de Hegel não é com a filosofia que ele está dialogando: é com aspectos de seu pensamento que a própria filosofia desdenhou, desprezou. Ele lida com o impensado no pensamento, com o que não foi dito no que foi dito.

O mesmo vale para os outros domínios. Para pegar apenas o exemplo mais saliente: já nas primeiras incursões lacanianas no campo da linguística estrutural o que interessa a ele? Justamente aquilo que fora rejeitado pela linguística. Senão vejamos. A primeira tarefa a que Saussure se consagra em seu “Curso de Linguística Geral” é a delimitação do “objeto da linguística”. Para Saussure, a linguística só pode se constituir como ciência ao definir seu objeto como sendo a língua. A fala, por sua contingência, e a linguagem, por sua generalidade, estão excluídas da linguística estrutural, não fazem parte de seu objeto. Ora, qual é o primeiro gesto de apropriação de Lacan em relação à linguística estrutural? O primeiro texto não é justamente “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”? Note-se bem: fala e linguagem haviam sido desprezados no ato de fundação da linguística estrutural. Ora, no primeiro gesto lacaniano em direção à linguística, naquele momento que ficou conhecido, por assim dizer, como “auge de seu estruturalismo”, Lacan se apropria precisamente daquilo que Saussure rejeitou: a fala e a linguagem. Outra maneira de dizer que a psicanálise lida com aquilo que, rejeitado pela ciência, retorna no real da prática analítica (cf. Écrits, p. 799).

As torções que Lacan impõe aos conceitos e modelos tomados de empréstimo das mais variadas áreas obedecem quase sempre a essa lógica. É a fidelidade ao objeto da psicanálise, ao campo epistêmico constituído por esse objeto complexo e paradoxal, que determina as torções impostas aos conceitos importados. Trata-se, num certo sentido, de uma leitura em palimpsesto. Como se o que realmente importasse fosse o texto rasurado.

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A biblioteca de Lacan não era a biblioteca de um psicanalista comum. Era erudita e atualizada. Lacan-leitor é um homem curioso, inquieto, insubmisso. Seus interesses vão da linguística à poesia chinesa, da filosofia à topologia, de Sófocles a Joyce. Sobre Freud podemos dizer o mesmo. A biblioteca de Freud contava com dicionários os mais diversos, uma volumosa seção de história das religiões, de antropologia, de teoria social, e muita literatura.

Gostaria de provocar a reflexão com essa pergunta: quantos de nós realmente possuem em suas prateleiras livros de outras áreas? Livros atualizados de outras áreas? Não pergunto acerca das referências que o próprio Lacan mobilizou, como Jakobson, Koyré ou Duras; Lévi-Strauss, Frege ou Joyce. Para dizer a verdade: quem de nós realmente tem uma ideia acerca do que é produzido hoje em áreas conexas ou nem tão conexas assim? Quais são as disciplinas que hoje tencionam a racionalidade psicanalítica e forçam nossos conceitos e práticas em direção à sua extremidade? Podemos desprezá-las? Gostaria que esse espaço pudesse reunir algumas pistas. Trata-se de um convite.

* Gilson Iannini AP/Belo Horizonte.