ENTREVISTA COM FRANCISCO BOSCO

por Gilson Ianini

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Francisco Bosco* é poeta. Mesmo quando não escreve versos ou letras de música. O atual presidente da FUNARTE é formado em filosofia e doutor em Teoria Literária. Foi colunista do jornal O Globo até recentemente. Deixou sua marca também na música brasileira, como parceiro de João Bosco e Guinga. Publicou poesia, da melhor qualidade, como em “Invisível rutilante”. Abandonou a poesia, mas ela não o abandonou. Bem feito, tornou-se ensaísta. Seu último livro, Orfeu de Bicicleta: um pai no século XXI, é um delicioso ensaio sobre a experiência de ser pai no mundo contemporâneo. Na entrevista a seguir, realizada nos primeiros dias de agosto, falamos um pouco sobre a relação dele com a psicanálise, que é profunda e se espraia para diversos objetos. Coisa de ensaísta.

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Gilson Iannini: Em uma entrevista recente, ao falar dos desafios de presidir a FUNARTE, você distingue entre a linguagem burocrática e a linguagem do intelectual, do ensaísta, onde você reconhece sua origem. Sua linguagem é ligada às artes, à literatura, à filosofia, à psicanálise. Achei interessante esse quadrante, esse quarteto… Você poderia nos falar um pouco sobre seu encontro com a psicanálise? Afinal, não é sempre que a psicanálise é disposta assim em tão boa companhia, ao lado desses outros discursos mais comumente reconhecidos enquanto matrizes de inteligibilidade da experiência cotidiana.

Francisco Bosco: Sobre a linguagem burocrática, é fundamental notar que ela é transitiva. Diferentemente da linguagem da literatura, da filosofia e da psicanálise – que são modos de conhecer o mundo, e isso, da perspectiva subjetiva, basta por si só – a linguagem burocrática só existe enquanto função. Justaponha-se a isso a dificuldade inglória de se efetivar as coisas no Estado brasileiro, e então você tem o absurdo de uma linguagem burocrática autofágica, antes um obstáculo do que um meio para a ação.

Sobre a psicanálise, não apenas a considero uma matriz de inteligibilidade da experiência humana (para além do cotidiano), como uma matriz das mais vivas na segunda metade do século XX e nesse começo de século XXI. A teoria da literatura (disciplina em que me formei mestre e doutor), ao contrário, já não diz nada de muito relevante ao mundo há uns 40 anos, no meu entender.

G.I.: Em seu último livro, Orfeu de bicicleta, você se mostra arrebatado pela experiência da paternidade e interroga o lugar do pai na contemporaneidade. Muita gente se reconhece de imediato, porque você, como ensaísta experimentado, eleva sua experiência individual a um outro patamar. Além disso, se mostra encantado pela linguagem poética das crianças, para a qual Lacan cunhou a expressão lalangue. E discute, a partir de sua experiência, com alguns fundamentos da psicanálise, conversando com Dolto, Winnicott…

F.B.: Sim, a conversa com Dolto e Winnicott é para tentar mostrar que, mesmo nos psicanalistas do século XX mais decisivos para a questão da infância, a questão dos gêneros ainda é tratada em descompasso com a experiência contemporânea (penso que a teoria dos gêneros, a partir do extraordinário livro da Judith Butler, no começo dos anos 1990, herdou parte do espírito contemporâneo da psicanálise).

Você observa dois outros aspectos que me são importantes. Primeiro, a passagem do particular à multiplicidade (ou ao impessoal), que está na gênese do ensaio como gênero, em Montaigne, e que foi teorizada por alguns dos pensadores mais decisivos para a minha formação (Blanchot, Deleuze, entre outros). Depois, o efeito do reconhecimento, por parte do leitor. Sou um ensaísta compromissado com o prazer da leitura (ainda Montaigne: “só leio o que me dá prazer” – a citação não está literal, mas está fiel ao espírito), e a identificação, você sabe, é uma fonte de contentamento. Procuro alcançar um equilíbrio entre a oferta do espelho e sua rasura.

G.I.: Gostei da provocação… É curioso. Parte considerável dos ativistas e estudiosos dos gender studies considera a psicanálise como um discurso que hipostasia o falo e, portanto, adotam uma postura crítica em relação a ela. Mas há uma outra parte que faz justamente o contrário. Que percebe a psicanálise como um discurso que permite pensar a sexuação como construção de uma posição subjetiva a partir de elementos mínimos, lógicos, algo bem próximo do gênero comoperformance

F.B.: Interessante isso. Gosto sempre de lembrar a metáfora utilizada por Freud nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”: a relação entre a libido e o objeto não é congênita, necessária, é antes como uma solda. Parece-me, ainda hoje, precisa e perfeita essa imagem. A solda é uma construção, mas cola forte como as identificações mais primitivas, difíceis de romper. Por aí há uma ponte entre a origem da psicanálise e os gender studies. Mas, me parece, o pensador mais decisivo para os estudos de gênero é Foucault.

G.I.: Uma de suas principais metas na FUNARTE é prolongar, no campo das artes, a visão de que o aprofundamento da democracia brasileira, no sentido de mais justiça social e de resgate histórico, depende não apenas de um conjunto de medidas econômicas e sociais, mas também de um embate cuja arena é o campo da cultura. Você acha que a psicanálise pode desempenhar algum papel nesse debate cultural e artístico?

F.B.: Eu penso que a psicanálise nunca teve tanto a contribuir. Não se pode pensar cultura sem diversidade, diversidade sem intolerância, intolerância sem imaginário, e imaginário sem Freud e Lacan!

G.I.: Se entendi bem sua resposta, um pouco telegráfica, você toma a psicanálise como um discurso que permite pensar como a cultura, depois que tiramos alguns véus, depois que tiramos aquela casquinha de tinta superficial, às vezes estufada, mofada, no fundo é feita de camadas e camadas que, no fundo, encobrem rivalidades especulares. Impossível não pensar no difícil contexto brasileiro atual, na proliferação do ódio…

F.B.: É possível (é comum, na verdade) pensar a época moderna como aquela em que as grandes narrativas de coesão identitária – a tradição, numa palavra – se desmancham no ar. Só a psicanálise fornece uma teoria para compreender a formação do eu, do campo imaginário, e sua relação com a agressividade, isto é, um comportamento que muitas vezes tem como causa uma luta pela manutenção da coesão identitária, para a qual a mera existência do outro pode ser uma ameaça. Em suma, considero a noção lacaniana de imaginário (e antes dela, claro, um estudo seminal como “Psicologia das massas e análise do eu”) o operador fundamental para se compreender o conjunto dos fenômenos de intolerância e violência no mundo contemporâneo, do fundamentalismo monoteísta, passando pelo racismo e as fobias de gênero, aos crimes de torcidas organizadas.

G.I.: Mas voltando um pouco atrás, queria ver se você poderia falar um pouco mais sobre essa contribuição possível da psicanálise para o aprimoramento da democracia, em termos culturais e artísticos, na sua visão. Afinal, um gestor público munido com o instrumental de Freud e Lacan não é em toda esquina que a gente encontra…

F.B.: Insisto, só a psicanálise permite compreender que a saúde imaginária, digamos assim, dos sujeitos como da sociedade, deixa-se surpreender na frase maravilhosa de Warhol: “I never fall apart, because I never fall together”. Isso vale para a cultura como para a arte, em certo sentido. A palavra arte, como sabemos, é, da perspectiva histórica, de uma radical descontinuidade em relação a si mesma. Suspeito que de Lascaux a Marina Abramovic, das pinturas egípcias à estética relacional não haja um elemento comum sequer. Na época moderna, entretanto, emerge uma certa ideia de arte que é a que mais me interessa (e que julgo perfeitamente contemporânea): a arte como experiência subjetiva e cultural da alteridade. Permanece sendo de Godard a formulação mais sucinta dessa ideia: a cultura é a regra, a arte é a exceção. A arte como o negativo (no sentido fotográfico) da cultura, isto é, como aquilo que a cultura recalca ou ignora de si, e que, revelado, a permite se expandir, mas sob o preço de um enfrentamento, de uma resistência. A psicanálise também permite compreender a resistência – subjetiva e cultural – à arte como uma tentativa de manter uma posição identitária. Daí talvez a relação, tão comum, entre artistas e certa fragilidade subjetiva – que é a sua maior força.

G.I.: Finalmente, para encerrar… Queria voltar ao começo. Como foi seu encontro pessoal com a psicanálise? Em que momento da sua vida? O que te fisgou?

F.B.: Por acidente de história pessoal, meu encontro com o conhecimento foi um encontro muito íntimo: precisei me fortalecer simbolicamente para não me perder de todo em alguns processos subjetivos por que passava. Durante anos eu lia tudo sob o crivo único da minha experiência pessoal. Basicamente romances do século XIX, aqueles mesmos com os quais Nietzsche disse ter aprendido muito mais psicologia do que com os psicólogos. Para alguém assim, o encontro com a psicanálise haveria de se dar.

* Francisco de Castro Mucci, conhecido como Francisco Bosco, é um poeta, compositor e filósofo brasileiro. Em 2015, foi nomeado presidente da Funarte.