A vida dos outros e a pulsão escópica

por Eneida Medeiros Santos*

A- / A+

No mês de julho nossa produção foi lançada por meio de uma atividade preparatória para o VII ENAPOL, O Império das Imagens, com foco no eixo temático “Em um mundo omnivoyeur as telas nos olham”. A atividade aconteceu na seção Santa Catarina, no dia 19 de junho. O filme A vida dos outros foi o ponto de partida para uma discussão em torno do objeto olhar e o imperativo de vigilância, elaborada por Eneida Medeiros no texto que traremos a seguir.

Com isso tocamos em uma questão bastante atual, trabalhada por Miller em “Intuições milanesas”, sobre a passagem de um tipo de dominação exercida nas sociedades disciplinares para outra espécie de dominação, compatível com o movimento de suspensão dos interditos na atualidade. Miller indica que um efeito da queda dos mecanismos de repressão é o apagamento das fronteiras entre dentro e fora, o que é correlato a uma espécie de dominação que não delimita a figura dos opressores, mas que se espalha através de redes flexíveis e moduláveis.

Essa questão tem incidências clínicas concretas, pois se a lei cria o desejo, o que resta como desejo quando o campo da lei está abalado? Se não há mais fora, como fica o estatuto do inconsciente? Que outros destinos são possíveis para o desejo e o gozo nesse contexto? São questões que o filme A vida dos outros e o texto de Eneida Medeiros nos trazem.

A atividade preparatória aconteceu dentro de uma regular chamada “Psicanálise vai ao cinema”. Essa atividade estava inserida no Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Cultura da EBP- Santa Catarina. Tratou-se de um espaço de interlocução entre psicanálise e outros saberes, com o cinema como mediação, que acontece na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis.

Paula Legey
Analista Praticante no Rio de Janeiro e editora da coluna EBP Acontece.

___________________________

A vida dos outros e a pulsão escópica

A vida dos outros foi o filme debatido na Seção Santa Catarina da EBP em junho. A discussão foi em torno da vigilância nos dias de hoje. O filme aborda as transformações que ocorrem em um agente alemão da STASI, Wiesler, obediente à ditadura do proletariado. Vivendo num mundo cujo objetivo declarado é “saber de tudo”, espionando, interrogando e descobrindo os suspeitos de conspiração contra o sistema político no meio artístico de Berlim Oriental, Wiesler, aos poucos, vai se revelando um sujeito dividido pelas angústias, dúvidas e paixões que vê/escuta no outro. A música Sonata para um homem bom é o tom que descreve o que acontece nesse complexo espaço situado entre o que vigia e o que é vigiado.

Ao escutar uma cena de amor entre Dreyman, o diretor de teatro que ele vigiava, e Christa-Maria, sua namorada, Wiesler adormece enternecido, encurvado, como se abraçasse o casal. Esta é a cena em que testemunhamos uma mudança de posição subjetiva de Wiesler que, a partir disso, começa a questionar o seu mundo. Seus ideais desmoronam, e com eles o seu embrutecimento, ao mesmo tempo em que se vislumbra para ele sair de sua clausura cotidiana.

Miller, ao falar dos paradoxos da pulsão em Silet, diz que somos todos, mais ou menos, vigiados. Com isso ele destaca o caráter prévio do Outro sobre os atos e percepções do sujeito. Já existe uma iluminação do Outro que dirige o olhar do sujeito no mundo. “O mundo é dado a ver ao sujeito, mas ele mesmo, o sujeito, é dado a ver ao Outro”. Isso leva Lacan a dizer que são as coisas que me olham. O filme mostra esse viés que Lacan chamou de esquize entre o que vê e o que é olhado, entre o que vigia e o que é vigiado.

Em um artigo publicado na revista Piauí, Jonathan Crary diz que a vigilância obrigatória acompanha as formas modernas de alienação e isolamento. Ele analisa um projeto americano que estuda o pardal-de-coroa-branca, um pássaro que possui a capacidade de ficar acordado por até sete dias durante o período das migrações. Investigando a atividade cerebral desses pássaros no período de vigília, o exército americano pretende obter conhecimentos e descobrir como as pessoas poderiam permanecer em vigília durante longos períodos e ainda assim se manterem produtivas.

O objetivo principal não é de se surpreender: conseguir criar o soldado sem sono e obter algum tipo de controle sobre o sono humano. Esse projeto faz parte de uma série de outras iniciativas do governo americano de criar um universo 24/7, ou seja, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Um deles é a criação de satélites-espelhos que poderiam iluminar uma parte da Terra, criando assim uma luminosidade permanente na Terra. O projeto faz parte, segundo Crary, do imaginário contemporâneo de iluminação contínua e é a “expressão hiperbólica de uma intolerância institucional a tudo o que obscureça ou impeça uma situação de visibilidade instrumentalizada e constante”. Trata-se de um modelo de normatividade que, conforme nos diz o autor, demanda uma temporalidade 24/7 de controle. Os modelos 24/7 “minam paulatinamente os binômios dia/noite, claro/escuro, ação/repouso”.

Foucault fez uso do modelo do Panóptico de Bentham como metáfora do poder. No Panóptico os presos eram confinados em suas celas, fixados em suas camas e em constante vigilância. Segundo Bauman, “o Panóptico era um modelo de engajamento e confrontação mútuos entre os dois lados da relação de poder”. Hoje vivemos num período “Pós-panóptico”, com o fim da era desse engajamento. O poder é inacessível e foge do alcance.

Na contemporaneidade, o “goza”, o “olha” continuam existindo como imperativos superegoicos. A liberação do homem não diminuiu a pressão do Supereu. Pelo contrário, permitiu o surgimento de figuras de autoridade que favorecem a busca incessante de satisfação absoluta.

Durante um almoço na sede da STASI, um jovem agente começa a contar uma anedota sobre o líder do Partido Comunista, Erich Honecker. O sol ilumina tudo, inclusive a grandeza do Presidente do Partido; quando o sol não está na Alemanha Oriental, diz o funcionário, ele está iluminando o Ocidente, deixando o poder de Honecker na escuridão. Lacan nos diz que sempre existe, em um objeto, alguma coisa que se esconde, que não se pode ver. Não existe espaço sem esconderijo. A escuridão também paira na RDA, como em todos os lugares; para além do muro de Berlim, cuja queda pôde fazer com que o sol iluminasse ao mesmo tempo as duas Alemanhas, também existe escuridão.

_____________________________________________________
* Eneida Medeiros Santos é Membro da EBP-AMP, Florianolis.