EBP Acontece | X Jornada da EBP – Seção Pernambuco: O Espetáculo das Imagens e suas Múltiplas Satisfações

por Silvia Farias*

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A X Jornada da EBP – Seção Pernambuco foi realizada no Museu do Estado de Pernambuco, nos dias 16 e 17 de outubro. O local escolhido para o evento é bastante singular, um palacete do século XIX, que acolhe atualmente um acervo com 14 mil itens, agregando importantes coleções, e que, atualmente, recebe frequentemente exposições de diversas representações de Arte Contemporânea, constituindo-se num espaço em que a beleza arquitetônica e obras de arte trazem o velho e o novo, o passado e o presente da nossa cultura.

Durante o ano de 2015, a jornada foi preparada com muito zelo por todos da seção PE, com diversas atividades centradas em torno do tema do evento. Vários convidados vieram a nossa seção: Tânia Abreu, Ana Lydia Santiago, Marcus André Vieira, Carlos Augusto Nicéas e Luiz Fernando Carrijo, cujas presenças nos possibilitaram aprofundar nossos estudos, com articulações clínicas e teóricas para um saber fazer, na direção do tratamento, em um tempo de proliferações das imagens e enfraquecimento do simbólico.

No primeiro dia da jornada, tivemos a mesa de abertura com os trabalhos de Elizabeth Siqueira; Paradoxo do espetáculo; Gisella Sette, Da imagem à significação; e Rosa Reis, Skabelo ou a arte de Joseph Beuys. A mesa foi constituída pela comissão científica, dando o tom do que seria a jornada, um espaço para discutir os impasses e desafios do analista, com sujeitos sem a orientação de significantes mestres, aprisionados no anonimato do gozo.

A segunda mesa, Ressonâncias Clínicas da Imagem, com trabalhos de Maria Eliane Neves Baptista, Uma escrita sem corpo; Uma caixa de Ressonância, de Rosane da Fonte; Quando o corpo se dar a ver, de Susane Zanotti trouxeram casos clínicos ilustrando que o imaginário não é só o especular, há algo que excede.

Finalizando o nosso dia, tivemos o seminário: O Espetáculo das imagens e suas múltiplas satisfações, proferido por nossa convidada Fernanda Otoni, que nos presenteou com uma fala extremamente articulada e poética que, como resumiu Gisella Sette, coordenadora da atividade, apresentou uma visão panorâmica do espetáculo das imagens e da teoria sobre o imaginário, com rigor teórico articulado a pratica psicanalítica atual.

Fernanda, no seminário, refere que as imagens acionam o circuito libidinal, dando o que falar, destacando que, atualmente, “Não é só apenas na forma de relatos que as imagens, cuja ressonância alcança o corpo falante, invadem o consultório. Elas entram no bolso do paciente que se servem delas, no lugar do dizer. Alguns analisantes, hoje, ao procurar uma análise, antes de falar do seu mundo, parecem precisar mostrá-lo. Ele traz para as sessões o seu mundo furado, o que funciona e o que falha, buscando ali encontrar uma forma de conectar elementos disjuntos. Ao trazer suas telas para a cena analítica, através desse objeto conector, eles apresentam as imagens que abrem a janela da angústia e consentem a entrada do analista neste quadro, até então circunscrito entre o sujeito e seu objeto. Trata-se de uma aposta de que, por essa via, pode-se instalar as condições de alargar o circuito, abrindo esse instante de ver ao tempo de compreender, um intervalo. A presença de um analista esclarecido quanto ao real em jogo pode descolar a pregnância pulsional da cena imaginária e favorecer a decolagem para outra cena, a cena analítica.”

No segundo dia da jornada, iniciamos com a atividade Conversando com Fernanda Otoni e Romildo do Rêgo Barros, partindo da pergunta que sempre será atual e necessária: o que pode a psicanálise? Eles nos transmitiram que, considerando os dias de hoje, a angústia vem se apresentando desconectada dos objetos simbólicos, a psicanálise vem fazer furos para tentar anexar singularidade a esse não todo. A aposta da psicanálise deve ser no sintoma, o que faz dobradiça entre o singular e o universal.

Em seguida, tivemos o Seminário: O infantil e o virtual, com a convidada Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros a qual destaca a função do analista em pontuar sobre o que se apresenta na tela e não se pode ver, fazendo um furo e colocando um ponto de hiância, a partir do qual a criança possa construir suas narrativas.

Prosseguimos a jornada com a mesa Crianças Expostas à Tela, com os trabalhos: O pequeno doma-dor de Bibiana Poggi e O jogo de Rui, de Rosa Feitosa , casos clínicos que nos mostram a virtualização do mundo e o lugar de endereçamento que o analista pode ocupar quando entra no jogo e faz uma aposta na construção singular de cada um.

À tarde tivemos a mesa O Excesso do dar a ver, com os trabalhos Selfies, de Cleyton Andrade; Uma Imagem vale mais que mil palavras, de Rogério Tomaz, em que os autores levantaram questões sobre os desdobramentos dos excessos das imagens na atualidade.

A última mesa, Corpos Marcados pela Imagem, com os trabalhos: Olho Prótese, de Késia Ramos; Sintoma e Imagem em Aby Warburg: uma leitura de Didi-Huberman, de Paulo Carvalho, mesa com um trabalho teórico e um caso clínico que nos mostram os efeitos do gozo escópico.

Finalizamos a jornada com a Conferência de Encerramento e Apresentação do X Congresso da AMP, O Corpo Falante, Rio 2016, ministrado pelo convidado Romildo do Rego Barros, o qual destaca o fato das jornadas servirem de preparação para o congresso de abril, colocando em movimento o novo inconsciente , discutindo o velho Imaginário e o novo que excede o especular, convocando todos a se debruçarem no estudo do corpo falante.

* Silvia Farias é aderente da EBP-PE.