O real sem lei na ciência, na psicanálise e na filosofia

por Adriano Aguiar

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Para este último DR do ano, eu escreveria algo como um editorial retrospectivo fechando os trabalhos de 2015. De fato, ao olhar o que nossos colegas produziram aqui no DR ao longo deste ano, impressiona a qualidade do que foi feito em termos de artigos, vídeos e entrevistas. Tivemos as entrevistas sobre a fundação da EBP, na coluna Canal EBP, que continuarão no ano que vem e se tornará um belo documentário sobre a nossa história. Os vídeos produzidos pela equipe do Ação Dobradiça sobre a redução da maioridade penal também nos elevaram a um outro patamar de produção, que já ultrapassa o texto escrito. Bibliô foi outra coluna que mostrou sua excelência não apenas nos textos escritos, mas também na qualidade gráfica. Nossos artigos foram densos e poderiam estar nas melhores revistas de psicanálise, destaques para o que apareceu em Orientação Lacaniana e Corpo Falante. Plasticidades trouxe para nós uma fina aproximação com a arte e EBP Acontece nos trouxe um retrato instigante do que se passou na nossa vasta escola ao longo de 2015.

Tudo isto estaria detalhado em meu editorial. Porém ao assistir a uma pequena videoconferência feita por Miquel Bassols, Presidente da Associação Mundial de Psicanálise, para a Jornada da EBP – Bahia, não pude evitar de mudar os rumos e escrever um texto mais epistêmico, o que ainda não havia feito aqui.

A conferência de Bassols tem o mesmo título do seu livro recém-lançado no Brasil  – “Psicanálise, Ciência e Real” – e faz uma interessante articulação com o tema do próximo Congresso Mundial da AMP – “O corpo falante. Sobre o inconsciente no século XXI”.

Bassols começa dizendo que estes três termos, psicanálise, ciência e real, não caminham separados, não são disjuntos, e que para abordar hoje os sintomas dos sujeitos contemporâneos e o mal-estar de nossa época devemos estudar detidamente suas zonas de interseção. Para isto, é preciso afastar inicialmente a idéia de que psicanálise e ciência são dois campo inteiramente afastados:

“Existe a idéia muitas vezes simplista, que se propagou em alguns meios acadêmicos, sobre a relação, ou melhor, sobre a falta e relação entre psicanálise e ciência”. (Bassols, na vídeo-conferência que segue abaixo)

Bassols nos lembra que Lacan estudou estudou cuidadosamente os pontos de interseção entre ambos os campos e nos mostrou que a psicanálise não existiria sem o advento da ciência moderna e que a relação da psicanálise com a ciência “não é contingente, mas lhe é essencial” (Lacan, 1988).

Após ter levado até as últimas consequências a intenção de fazer da psicanálise uma ciência do real, Lacan não hesitou em afirmar, mais para o final do seu ensino, que a psicanálise não é uma ciência. Desde o advento da ciência moderna, os cientistas buscam investigar a natureza para tentar descobrir, sobretudo através da física matematizada, as leis que regem o real, as chamadas “leis da natureza”. Lacan irá então dizer que o real que a psicanálise descobre em sua praxis, diferentemente do real da ciência, é um real sem lei, um real que tem relação com a contingência (Miller, 2008) fazendo uma fratura no determinismo das leis do real científico.

Bassols chama a atenção para o fato de que uma das coisas mais interessantes que tem acontecido recentemente é que a ciência tem se encontrado com um real que é disjunto da realidade empírica, um real que aparece nas fraturas da realidade e coloca em questão o determinismo do real científico. Bassols cita o cientista Javier Medero, que diz:

“chama atenção que a biologia seja determinista, quando a física deixou de ser. Um determinismo absolutamente infundado, genético ou neurobiológico, que busca dar conta não só de como é um indivíduo, mas também de como ele atuará em um dado contexto.”  (Bassols, ibid)

O que eu gostaria de acrescentar, à guisa de contribuição para esta discussão, é que não apenas na física, mas também no campo das neurociências, genética e na filosofia da ciência, os pesquisadores também têm se deparado com um real sem lei, que coloca em questão a perspectiva reducionista habitual do mainstream das neurociências, e fornece ferramentas conceituais que favorecem a perspectiva da “ação lacaniana” (e aqui me reencontro com um tema que perpassou o DR ao longo deste ano) nos debates contemporâneos, já que o século XXI, já é, e será cada vez mais, marcado pela biopolítica (Foucault) e pelas desordens no real (Miller, 2012).

Um dos debates mais acalorados na filosofia analítica (como é chamada a filosofia anglosaxônica) recente se deu em torno do livro Mind and World (2005), do filósofo americano John McDowell, no qual o autor propõe uma virada no modo como pensamos a natureza. Ele mostra que herdamos de Max Weber uma concepção de natureza  “desencantada”, compreendida como “reino das leis”, que não deixa lugar, na perspectiva da ciência, para o que é da ordem da subjetividade, a não ser que esta seja reduzida ao determinismo neuronal. McDowell propõe então (através de um longo desenvolvimento que não caberia aqui) que devido às transformações que a linguagem produz nos seres falantes, não haveria como não reconsiderar, nos humanos, a própria noção de natureza, em nome do que ele chamou, com ressonâncias hegelianas, de Second Nature (ibid).

Embora McDowell chegue a algo que já sabíamos há muito tempo com Lacan, a saber, que a linguagem desnaturaliza o ser falante, não é sem interesse para nós que este seja um grande debate na filosofia contemporânea quando as visões naturalistas reducionistas têm tanta reverbaração na sociedade. A tese de McDowell fica mais interessante, na verdade, quando podemos vê-la ser “ontologizada” através dos achados recentes da biologia e neurociências.

A filósofa da ciência, Nancy Cartwright, afirma no livro The dappled world: a study in the boundaries of science, que qualquer um que olhe clara e honestamente para o estado da ciência atual irá se deparar com o fato de que não podemos mais aceitar a equivalência, frequentemente assumida, entre realismo científico e universalismo das leis. A autora nota que nos diversos domínios abarcados pela ciência cada vez mais nos deparamos com o fato de que não podemos estabelecer leis universais:

“The claims to knowledge we can defend by our impressive scientific successes don’t argue for a unified world of universal order, but rather for a dappled world of mottled objects.” (Cartwright, 1999, p. 10)

Os trabalhos do biólogo Francisco Varela, por exemplo, mostram que a bio-materialidade da natureza estabelece um número relativamente pequeno de parâmetros limitantes para os seres vivos, ela dificilmente funciona como algo que determina todos os detalhes da vida. Ele descreve os desdobramentos ontogenéticos e filogenéticos dos seres vivos como processos de bricolagem satisfatórios/suficientes, ou seja, que trabalham apenas para atingir o que é “bom o suficiente para sobreviver pelo tempo suficiente para reproduzir”. Mas a evolução não produz, nem obriga a produção do que seria evolutivamente ideal. Para além de limitar minimamente o que favorece a sobrevivência e a reprodução, ela permite uma diversidade enorme em todos os níveis do processo genético e evolutivo que modela e é modelado pela interação com o ambiente, podendo inclusive permitir a persistência de lacunas altamente disfuncionais no circuito de vida dos organismos. (Varela, Thompson & Rosch, 1991).

Os trabalhos da filósofa Catherine Malabou e do nosso colega da AMP, François Ansermet (em colaboração com o neurocientista Pierre Magistretti) que se debruçam sobre a descoberta da neuroplasticidade, mostram que o cérebro humano está organizado e re-organizado “dialeticamente”, aberto a sofrer continuamente múltiplas oscilações entre a sua “flexibilidade maleável” e sua “fixidez resistente”. É preciso transformar a visão “mainstream” da ciência na sociedade e na maior parte dos meios intelectuais, que ainda não assimilaram a importância da historicidade constitutiva do cérebro para a visão que temos da ciência:

“Our brain is plastic, and we do not know it. We are completely ignorant of this dynamic, this organization, and this structure. We continue to believe in the “rigidity” of an entirely genetically brain” (Malabou, 2008, p. 4)

Ora, é justamente esta base material “flexível”, indeterminada, aberta à contingência que permite que os seres humanos sejam “parasitados” pela linguagem. Isto vai de encontro àquilo que foi, segundo Miller, o ponto de partida de Lacan, em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”; onde, para dar sentido à prática da psicanálise Lacan destaca que uma pré-condição para a inserção do simbólico é que “o real apresenta furos, poros à ação do símbolo” (Miller, 2011, p. 12). É sobre esta base material furada, aberta, inconsistente que o “moterialisme” da linguagem opera, desnaturalizando o organismo,  e se tornando para sempre um “cancro”, como diz Lacan, no seio da própria natureza.

Em uma das lições de O Banquete dos Analistas (Miller, 2011), intitulada “A psicanálise e seu parceiro”, Miller afirma que, enquanto para Freud a psicanálise surge historicamente como resposta um mal-estar que é contínuo ao longo das épocas e que decorre do discurso do mestre, para Lacan o surgimento da psicanálise decorre de uma discontinuidade, ou seja, do corte operado pelo discurso da ciência e pelo mal-estar que este produziu no mundo moderno. Assim, segundo Miller, Lacan se distingue de Freud a respeito da leitura que fazem do mal-estar na civilização, na medida em que para Freud a psicanálise joga suas cartas com o discurso do mestre, enquanto, para Lacan o partenaire com que a psicanálise joga cartas é a ciência: “A psicanálise joga sua partida essencial com a ciência que é no fundo seu partenaire.” (Miller, 2011, p. 402).

Sabemos que Lacan dividiu a partida da seguinte maneira: enquanto a ciência se baseia em um axioma positivo – há saber no real, a psicanálise leva em conta a descoberta freudiana de que há furo no real, de que a sexualidade faz furo no saber no real, o que se enuncia pela proposição – A relação sexual não existe. Enquanto a ciência parte de que há saber no real, a psicanálise não o nega, mas acrescenta – o real em jogo na experiência analítica é um real sem lei. Ora, a ironia que as novas descobertas científicas estão revelando é que, se é assim, a psicanálise já ganhou a partida, pois o real que a ciência vem encontrando é também, à sua maneira, um real sem lei.

Um ótimo Natal e Feliz Ano Novo!

* Adriano Aguiar é membro da EBP/AMP e editor do DR.

Cartwright, N. The Dappled World:  A Study of the Boundaries of Science. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
Lacan, J. A  ciência  e  a  verdade.  In: Escritos.  Rio  de  Janeiro: Jorge Zahar, 1998. (Originalmente publicado em 1966)
McDowell, J. Mente e mundo. (Tradução Cuter, JVG). Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2005.
Miller, J-A. A merci de la contingence. La lettre mensuelle n°270, juillet-août 2008. Disponível online: (http://www.causefreudienne.net/a-la-merci-de-la-contingence/)
——– (2012) Apresentação do tema do IX Congresso da AMP. Disponível online: http://www.congresamp2014.com/pt/template.php?file=Textos/Presentation-du-theme_Jacques-Alain-Miller.html
Varela, F; Thompson, E. & Rosch, E. The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience, Cambridge: MIT Press, 1991.