Nova Diretoria na Rede

por Ana Lucia Lutterbach Holck

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Discurso de posse da nova Diretora da EBP, Salvador, 12 de abril de 2015.

Caros colegas,

Em primeiro lugar, agradeço ao Conselho pela confiança que se deduz deste convite feito a mim para ocupar a direção da EBP nos próximos dois anos. Agradeço à Paula Borsoy, Fernanda Otoni e Marcela Antelo, que toparam partilhar comigo essa empreitada.

Serei breve.

Devo confessar que não aceitei o convite sem certa hesitação. A essa hesitação juntou-se o comentário não muito animador que escutei algumas vezes: “É, não se pode dizer não à Escola”. Depois de escutá-lo repetidas vezes, fiquei intrigada: por que não se pode dizer não à Escola? Estaríamos submetidos ao capricho de um Outro que nos obriga? Trata-se de uma imposição? Não.

Não posso dizer não, porque de alguma maneira, em minhas muitas andanças pela EBP eu me apresentei como alguém que poderia dizer sim a este convite. Não posso dizer não, porque, de uma maneira ou de outra, sou responsável por me fazer ser convidada, mesmo sem sabê-lo. Aceitei porque não posso dizer não, sem dizer não à psicanálise e à Escola às quais me dedico há tantos anos. Foi ao responder a essa questão que pus fim à hesitação e meu sim tornou-se decisivo, decidido.

Apesar de ser uma função executiva e administrativa, como se trata de nossa Escola, essas funções não podem ser exercidas sem a experiência da psicanálise, sem a política da psicanálise. A política, como nos ensina Lacan, é o que ordena a estratégia e a tática e, portanto, concerne ao fim mesmo de nossa ação.

Marcelo, o diretor que nos precede, junto com Pepita, Glacy e Tania, não só injetou vivacidade na Escola fazendo-a presente em cada canto, produzindo palavras e imagens, como também resolveu pendências antigas que pareciam sem solução. Dessa maneira, a diretoria anterior nos convida a dar continuidade ao seu trabalho e ao mesmo tempo deixa campo aberto para novos acontecimentos.

Durante nossa gestão teremos dois grandes eventos internacionais: o ENAPOL e o Congresso da AMP, que nos ocupa e continuarão nos ocupando até abril de 2016. Caminhando ao lado dos grandes eventos, nosso projeto dará ênfase à prática cotidiana do analista hoje que, como nos adverte de Laurent1, no texto já clássico entre nós – O Analista cidadão -, trata-se de um analista que participa e ajuda a civilização a respeitar as particularidades individuais, sensível às formas de segregação, enfim, um analista capaz de entender qual a função que lhe corresponde na cidade.

Logo no início da Ética da psicanálise, Lacan nos lembra que na nossa experiência, não se trata de normas e muito menos de normalização em torno de ideais de conduta, mas trata-se do desejo, da força de um desejo inédito, e das consequências do agir em conformidade com este desejo, que longe de produzir apaziguamento, exige coragem.

Se ele começa este seminário com uma crítica à “normalização reguladora” que frequenta o devaneio burguês, no final, Lacan faz uma crítica feroz aos ideais terapêuticos:

“Essa cidade, podemos nós, hoje em dia, encerrá-la tão facilmente? Pouco importa. Qualquer regularização que trouxermos à situação daqueles que concretamente recorrem a nós em nossa sociedade, é por demais evidente que sua aspiração à felicidade implicará sempre um lugar aberto ao milagre, uma promessa, uma miragem de gênio original ou de excursão pela liberdade, caricaturaremos, de possessão de todas as mulheres para um homem, do homem ideal para uma mulher. Constituir-se como garante de que o sujeito possa de qualquer maneira encontrar seu bem, mesmo na análise, é uma espécie de trapaça”2

Desde Freud, o efeito terapêutico só interessa à psicanálise de viés e Lacan se dedica, em várias ocasiões, tanto nos seminários quanto no Escritos, a demonstrar que o objetivo de curar é uma espécie de trapaça. A orientação lacaniana nos lembra disso a cada vez que surge a ocasião para tal.

No curso Coisas de fineza, em sua crítica aos CPCT, Miller nos diz que:

“Ao menos em psicanálise, o foco não está no efeito curativo, razão pela qual abandonamos o termo cura [guérison] em prol do termo experiência analítica”.3

E um pouco mais adiante: “dar centralidade à ação terapêutica é ceder ao que o mundo pede à psicanálise, para seus próprios fins, seus fins de utilidade, seus fins de governança. Isto é ceder, abrir as portas da cidadela psicanalítica e deixar esse preconceito propagar-se no meio dela.”4

O fato de fazer uso da fala e ter um corpo, já coloca o ser falante diante de impasses incuráveis e são estes os seres com os quais lidamos, os incuráveis, incuráveis da humanidade, incuráveis do real que cabe na vida. À psicanálise cabe tratar do destino singular que cada um pode encontrar para o real do gozo, operar com as defesas contra o real, tanto em sua desmontagem como em sua montagem, conforme o caso.

O testemunho do passe, a demonstração de um final de análise e a dimensão do incurável nos fornece indícios para um trabalho de intervenção da psicanálise na cidade.

Só existe uma “psicanálise”, mas esta não é prêt-à-porter, isto é, não está previamente pronta para enquadrar os analisantes em classes. Cada analista, em cada experiência, como nos ensina o passe, vai se servir da psicanálise com Freud e Lacan, certamente, mas não sem a invenção de seu próprio sinthoma, que lhe permite uma leitura única do sintoma daquele que o procura. É essa orientação lacaniana de nossa prática que permite nos instalarmos na cidade.

Contamos com invenções não só de cada um dos analistas que se dirigem aos ambulatórios, hospitais, escolas e à rua, mas também daqueles que recebem a cidade em seu próprio consultório, em cada corpo falante que escuta cotidianamente.

Como pensar a “intervenção” do analista, não no sentido da medicina, mas da arte? Isto é, como pensar a psicanálise como uma “instalação”, um acontecimento singular para cada parlêtre que se propõe a esta aventura?

Poderíamos pensar a análise sem o propósito de cura, mas como uma espécie de curadoria do acervo de produções únicas para se lidar com o real? Artaud, no texto “Bruxaria e cinema”, propõe que a arte possa extrair do cinema uma força comparada a da fome. São estes os meus votos, que a psicanálise possa extrair da Ação Lacaniana uma força comparável a da fome. 5

Essa é a meta de nossa diretoria.

Trago aqui alguns fragmentos retirados do projeto de cada uma das diretoras:

Marcela Antelo, a diretora de biblioteca, propõe, entre outras coisas, “dar a conhecer nossos lançamentos, nossas projeções, nossos bancos de dados e abrir nossos discursos, estantes, mesas e cadeiras aos parlêtres que circulam nas suas redondezas. Que toquem e cheirem nossos livros, que baixem nossos PDFs ou assinem nossos aplicativos. Sobretudo que se encontrem nelas”.

Paula Borsoi, diretora de tesouraria, leva em conta, além da grana, a gã investida: “Além do capital necessário para pagar nossas contas, apoiar os eventos das Seções e delegações, investir em publicações e sua distribuição, vamos investir também nosso capital libidinal para sustentar a Ação Lacaniana.”

O projeto é nosso, da diretoria e da EBP, mas sua coordenação estará a cargo da diretora secretaria, Fernanda Otoni, que nos propõe “verificar se poderemos reunir sob o nome de “Ação Dobradiça” o que se pratica no Campo Freudiano no Brasil, tendo como bússola, para localizar o produto desta Ação, os territórios lacanianos. O que são os territórios lacanianos? Partimos do princípio que podemos encontrá-los, lá, onde pelo menos um analista investiga os impasses de seu tempo e transmite o que pode a psicanálise face ao real ali engendrado. Onde essa experiência se enunciar, consideraremos que estamos diante de um fértil território lacaniano”.

Vocês escutaram só uma pequena amostra do que cada diretor preparou para os próximos dois anos. No momento oportuno os projetos serão publicados na íntegra.

Pretendemos, além disso, realizar vídeo conferências inter-Seções que nos permitirão trocar experiências com colegas em diferentes lugares. Convidamos Marcelo Veras para ficar entre nós num projeto que é a sua cara, uma coluna de vídeos no DR: Canal EBP. Para comemorar os 20 anos da EBP, Marcelo irá nos contar, através de diversas entrevistas, a história da EBP e da psicanálise lacaniana no Brasil.

Com essas e muitas outras comissões que estão se formando convidamos cada um de vocês a participar, cada um com seu sintoma.

Obrigada,

Ana.

* Ana Lucia Lutterbach Holck / AME (AE 2007-1010) da EBP-AMP/ Rio de Janeiro.

Referências:
1 LAURENT, E. O Analista cidadão em A Sociedade do Sintoma. A Psicanálise, hoje. Contracapa. Rio de Janeiro,2007. p. 144
2 S7: 364
3 MILLER, J-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo. Zahar, Rio de Janeiro, 2011. p. 9
4 idem, p. 11.
5 “que el arte sirva para sacar de él (el cine) una fuerza comparable a la del hambre” (Que a arte sirva para extrair dela uma força comparável a da fome). Artaud,A. “Brujeria y cine m El Cine [1949]. Alianza Editorial, Madri, 1973.