Discurso de posse do novo Presidente da EBP

por *Sérgio de Campos

A- / A+

Discurso de posse do novo Presidente da EBP, Salvador, 12 de abril de 2015

_________________________

Caros membros da EBP, saudações!

Agradecimentos
Agradeço à Diretora da EBP, Ana Lúcia Lutterbach, pela parceria realizada junto ao Conselho da EBP. Agradeço aos integrantes do Conselho anterior, com quem tive o privilégio de trabalhar e a oportunidade de apreender sobre a política da Escola. Agradeço ao Conselho atual: Fátima Sarmento, Fernando Coutinho, Heloisa Telles, Ram Mandil, Rosane da Fonte e Sílvia Espósito pelo trabalho competente e por confiarem no meu nome para presidir a Escola. Um agradecimento exclusivo a Marcela Antelo que aceitou o desafio de seguir comigo como secretária do Conselho, durante esse próximo mandato. Um agradecimento especial ao Presidente da EBP, Luiz Fernando Carrijo, pela parceira, pela confiança e pelo aprendizado. Agradeço também a cada ex-presidente da EBP. Espero poder contar doravante com o apoio, os ensinamentos e as orientações daqueles que conduziram a Escola dentro dos trilhos até aqui. Enfim, agradeço a todos os membros da EBP. Não citarei os nomes, mas agradeço a cada um de vocês, colegas e amigos que fizeram e fazem parte, de modo direto ou indireto, do meu percurso na Escola de Lacan.

Os Nomes da Escola
De repente, vinte anos se passaram desde o teu nascimento, em 30 de abril de 1995. Ao largo dessas duas décadas, te tornaste viva, extensa e complexa. Na data de teu nascimento, Miller assinalou que tu nascias sob os melhores auspícios e que as fadas se inclinaram para abençoá-la junto ao teu berço. Agora, contando com seus melhores vinte anos, tu és como uma mulher vistosa, dotada de uma personalidade coletiva, de uma virtude que promulga o não-todo e cuja juventude se expressa na vontade de buscar o novo.

Escola, o teu nome é prudência, pois tu respondes às contingências dos fatos com equilíbrio e sabedoria, visto que te moves na ordem de um saber a ser inventado e te apresentas sempre ao lado da ocasião, inspirando confiança. Escola, és uma espécie de spudaios, traduzido por “ardente”, que de acordo Aristóteles é aquele que alcançou a maturidade e um saber fazer, inobstante sem se tornar um filósofo.

Escola, o teu nome também é trabalho. Tu és esforço de poesia em forma de trabalho; és aventura e aspiração em forma de trabalho; és alegria e satisfação em forma de trabalho. Aliás, tu és trabalho permanente de afiar o corte de tua navalha freudiana. A finalidade desse trabalho endereçado a ti é indissociável da formação do analista, a ser dispensada na reconquista e na ampliação do campo aberto por Freud.

O Ato de fundação nos orienta ao trabalho. Contudo, não se trata de um trabalho que advém da exigência de um imperativo superegóico. É verdade que tu – com teu feminino – nos demandas sempre um esforço a mais, para tornarmos lacanianos. Entretanto, trata-se de um trabalho que implica o entusiasmo e o desejo decididos, que constitui laço e conjuga invenção, diversidade e mudança.

Escola, digo, o teu nome é mudança. Os tempos mudaram: o real, o simbólico e o imaginário se reconfiguraram a partir da clínica do parlêtre. A psicanálise mudou e, por consequência, tu também mudaste. Devemos aceitar aos ventos da mudança, desde que a centelha da invenção freudiana permaneça sempre fulgurante. Portanto, se teu nome é mudança, o teu nome também é permanência, pois Uma Escola é feita para durar e devemos fazê-la avançar, ampliar, conquistar novos territórios.

Desde o dia 22 de janeiro 2000, data da fundação da Escola Una, a cada dois anos, durante o Congresso da AMP, ocorre a dissolução e a refundação de tua unidade. Essa lógica operatória sincopada, de corte e de relançamento, garante a permanência de tua unidade, visto que se por um lado, impede a fragmentação de teu corpo, a mortificação do teu desejo e o engessamento de tua invenção; por outro, promove a Escola Una à condição de incorporar o mito de Phoenix – símbolo da felicidade, virtude e inteligência – que fenece ao entardecer para renascer das cinzas pela manhã.

“De tudo fica um pouco”, como escreveu Drummond. Escola, teu nome é permanência em razão de ti alimentares desse pouco, extraído dos resíduos, das dobras e das sombras de uma experiência analítica no passe. Aliás, Escola, teu nome é permanência em razão de sua função de acolher esses restos para fazer desse pouco impuro, o agálma de tua garantia e o muito de tua transmissão.

Enfim, se teus nomes são tantos, o que importa é que de acordo com Lacan, nomear é a única coisa da qual estamos seguros de fazer furos. Portanto, é desses furos que tu respiras, e é deles que provém toda a respiração celular e a obtenção de energia que tu geras e emanas para tua comunidade analítica.

Uno e o múltiplo
Se Minas são muitas, como escreveu Drummond, quiçá o Brasil, digo eu. Vencido o capricho moldado pela natureza em forma de múltiplo, tu alcançastes o teu Uno. O Uno é fora de série e da ordem, situa-se no campo da ek-sistencia, não é eterno, tampouco infinito, mas existe como sucessão aperiódica de Uno a Uno. No teu nascimento, Miller já havia identificado tua fraqueza particular. Diferente de outras Escolas, tu tinhas o múltiplo intenso em detrimento do Uno. Ao longo dessas duas décadas, tuas diretorias e teus conselhos trabalharam juntos para reforçar o teu Uno. Logo, és múltipla por natureza e Una por dedicação. Portanto, o Uno é o tratamento do teu múltiplo.

Tu és Una, malgrado as diversidades dos costumes, as tradições culturais e as distâncias geográficas. Tu és Una no sentido contrário à tendência natural ao distanciamento, à divergência e à fragmentação. Portanto, teu nome é Una, conforme teu espírito, mas sem o enfado que se vincula à homogeneidade, pois és Una em tua clara orientação e plural no sentido de um enxame.

As gerações da Escola
Ao longo desses vinte anos, tu engendraste pelo menos quatro gerações de membros. A primeira geração chegou oriunda dos grupos analíticos que se dissolveram e que, de maneira incansável, teve a Iniciativa de construir uma Escola. Essa geração teve que aprender a compartilhar um affectio societatis para superar a nostalgia dos grupos e, mais do que somar, aprendeu a multiplicar o saber, o trabalho e a experiência a despeito das diferenças, colocando à prova o desejo de cada um, a cada ocorrência. Essa geração serviu de exemplo para os mais novos e ao depositar algo de seu, fez história ao fundar teus alicerces, tornando tua estrutura óssea de pés no chão e também a tua cabeça pensante.

Uma segunda geração emergiu no rastro da crise de 1998 e chegou até tu com as credenciais do passe de entrada. Essa geração tomou seu lugar a partir do seu trabalho e do seu desejo de edificar um corpo de Escola. Era um momento de renovar a aposta e essa geração com entusiasmo fez das tripas o teu coração pulsatil.

Uma terceira geração formada dentro de suas fileiras e advinda das primeiras turmas dos Institutos de Psicanálise do Campo Freudiano – com novos ares e desejo revigorado – se acercou das duas primeiras, com sua juventude para constituir o tecido de teus pulmões.

Por fim, temos uma quarta geração que se configura como os mais jovens, vindos não só dos Institutos, mas também de terras estrangeiras, particularmente, capacitados com o conhecimento das novas tecnologias. Essa quarta geração se incorporou às demais para compor os teus olhos, tua visão de futuro, teu farol ilumina o horizonte.

Seguramente, muitas outras gerações virão compor cada timbre de voz de teu Um-corpo de parlêtre, estabelecendo teu ego. Em teu Um-corpo falante, não há identificação, mas, propriedade; não há falta, mas, consistência; tampouco há amor ao pai, contudo, há amor próprio, na vertente do amor ao Um-corpo. Portanto, tu como parlêtre, adora o teu Um-corpo que fala, porque crê que o tem. Tu como parlêtre também tens espírito, porém, sempre inacabado. Daqui a vinte anos, certamente, teu Um-corpo que fala serás conduzido pelo espírito dos mais jovens, e esperamos – os mais velhos – estar vivos e com saúde para aplaudi-la.

Uma vez por dentro do teu Um-corpo, as diferenças entre as gerações se evanescem, passando a ser ressaltada apenas a experiência analítica de cada um, como cada célula, norteada pelo tecido uníssono de tua orientação lacaniana. Tu ti constituiste em uma unidade, a partir de um desejo que supera as identificações imaginárias com as gerações, com as regiões, com os grupos e com as histórias coletivas e individuais. Com efeito, tu que possuis a estrutura do paradoxo de Russel – na medida em que tu és um conjunto daqueles que não pertencem a nenhum conjunto (MILLER, 2000, p. 255).

Admissão de membros na EBP
Lacan introduziu o conceito de Escola para propor uma maneira até então inédita de cada um estar só e ao mesmo tempo junto com outros para realizar o trabalho endereçado à causa analítica. O Conselho tem a função de selecionar candidatos – entre o rigor e a aposta – que possam integrar o teu corpo. Mas, afinal, qual é a senha para se alojar em teu Um-corpo falante? Suponho que esta senha se constitui de uma tríade: palavra, experiência e corpo. Primeiro, agrega-se ao teu Um-corpo com o significante. O praticante expressa seu desejo, diz a que veio e manifesta fragmentos consistentes de sua enunciação analisante, advinda de uma experiência analítica pessoal. Em segundo, o praticante enuncia sua experiência, sua prática clínica em consultório, noticia sua vivencia como supervisor e supervisando, apresenta currículos, diz de suas publicações e participações em eventos. Por último, o praticante coloca o corpo próprio no próprio corpo da Escola, mostra que é do ramo, de maneira efetiva na vida da Seção, da EBP e da AMP.

Jacques Alain Miller assinala que não há nenhum critério prévio de admissão a ser cumprido, contudo “deve-se manter a exigência analítica nas admissões, nada de relaxamento seja qual for o preço a pagar”. Em síntese, o Conselho examina com rigor e atenção especial e detalhada sobre qual é a relação do candidato com a causa analítica.

Enfim, gosto da ideia de que o Conselho necessita avisar um parlêtre de que ele já é membro da Escola e ainda não sabe disso. Então, o papel do Conselho é o de pescar parlêtres causados que nadam inquietos nas águas de nossa comunidade analítica.

Política e ek-sistência
A psicanálise ek-siste e, portanto, em virtude de sua existência, está sempre fora do lugar. Se há um discurso, entretanto, não há lugar definido para a psicanálise. Ademais, não há teoria do conhecimento na psicanálise, visto que o inconsciente é estrangeiro a todo saber estabelecido.

Duas consequências derivam da ek-sistência da psicanálise: a primeira é a tentativa de um rechaço, por parte de uma fatia da sociedade e a segunda, o ensejo de assimilação da psicanálise pelo outro segmento. Se por um lado, o rechaço se expressa como ódio mediante a utopia totalitária, daqueles que pretendem normatizar a clínica, que se propalam auratos das verdades supostamente científicas, patrocinadas pelo mercado e que bradam ataques com a pretensão de desqualificar a psicanálise, diluindo-a numa psicoterapia vulgar; por outro, os ensaios de apropriação, advém das tentativas de regulamentar a psicanálise sejam pela igreja ou pelos conselhos de classe, das tentativas de domesticá-la, através do discurso do mestre ou do univesitário em enquetes avaliadoras, cegando o seu fio de corte, e por consequência, transformando-a em uma terapia de efeitos nefastos, braço terapêutico da filosofia, da religião ou das TCCs.

Desde sua origem, em razão de sua existência, a psicanálise enfrenta uma tensão permanente, quase que estrutural, seja de dentro, através de forças dispersivas dos fenômenos de grupo; seja de fora, mediante as forças invasivas, assimiladoras e adaptadoras ou de rechaço. Portanto, Escola, tu necessitas ser mais do que um refúgio para o mal estar na cultura; necessitas ser uma fortificação, uma fortaleza, onde se espera defender a psicanálise e também intervir como uma cunha na sociedade contemporânea.

Tu dispões de duas forças operacionais capazes de intervenção. A primeira, uma força centrifuga vetorizada e endereçada à sociedade que, como uma cunha, influencia os seus modos de vida, e de onde emana a psicanálise aplicada e a psicanálise em extensão, no que concerne a presença da psicanálise no mundo. Essa força centrifuga é uma força de semeadura da psicanálise. A segunda força, denominada de centrípeta, retorna como vetor em direção ao próprio centro, que mediante a psicanálise pura e a psicanálise em intensão como doutrina, neutraliza e corrige os desvios de rota e com seus operadores – garantia, passe e supervisão – apura cada vez mais a formação do analista.

Garantia
O analista se autoriza por si mesmo. Isso não impede que tu afiance que um analista dependa de tua formação. Portanto, a garantia provém de tu, e tu pode fazê-la por tua própria iniciativa, pois o gradus está implícito dentro de tuas fileiras, de tal sorte que o AME se constitui pelo fato de que tu possas distinguí-lo como o psicanalista que comprovou sua capacidade. Em tua plena maturidade, tu contas com tua primeira Comissão de Garantia que pode reconhecer e sugerir nomes de analistas praticantes para que a FAPOL abone com o gradus de AME.

Passe
Direi apenas uma palavra sobre o passe. É necessário demarcar que desde a teu nascimento, tu gerastes a prole de treze AEs ao longo de seus fertéis vinte anos. Trata-se de uma considerável experiência da Secretaria e do Cartel do passe sobre o dispositivo que de maneira topológica concerne aos testemunhos do parlêtre a extimidade entre o público e o privado. Entre APs, AEs e AMEs, teu corpo caminha heterogêneo a passos largos em direção a uma Escola de analistas.

Supervisão
A supervisão, uma visão de fora, se torna necessária em virtude do sintoma não ser objetivável e tampouco o analista ser exterior a ele. Assim, não é seguro, em absoluto, uma prática analítica sem a supervisão, sob o risco de se conduzir o caso às cegas em direção ao erro. Como o analista não existe, mas apenas o seu ato que se afere somente pela ética das consequências e não pelas suas boas intenções, se faz necessário precisar mediante a supervisão o controle da prática analítica. Depois da Conversacao ocorrida no XI Congresso da EBP, a supervisão entrou definitivamente no programa da Escola. Portanto, a EBP reinaugura um debate permanente sobre a supervisão. Resta agora, o teu corpo de analistas encorporar o uso regular da arte da supervisão em sua prática clínica.

Escabelo
Por último, quero deixar com Luiz Fernando Carrijo um pequeno escabelo para que ele possa se inspirar.

Muito obrigado!

* Sérgio de Campos / AME (AE 2009-2012) da EBP-AMP/ Belo Horizonte

_________________________

Referencias Bibliograficas:

GARCIA, C., Escola Una e garantia: Considerações sobre o Uno “não-periódico”, a partir dos estudos do matemático e físico Roger Penrose, inédito.
LACAN, J. (2002), “Radiophonie, In: Autres écrits” (pp. 432-3). Paris: Seuil.
LACAN, J. “Proposição de 09 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da escola”, Outros escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 249.
MILLER, J.-A., Piezas sueltas, Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller, Buenos Aires: Paidós, 2013, p. 44.
MILLER, J.-A., El ultimissimo Lacan, Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller Buenos Aires: Paidós, 2013.